Nuno Campilho
Biografiado Autor

29 Abr 2026 | 16:35

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Nuno Campilho

Apontadas incoerências a Rui Borges, técnico do Sporting, que abandonou discurso contra arbitragens e passou a queixar-se das mesmas


Há metáforas que envelhecem bem porque continuam a servir e, depois, há momentos que pedem que se carregue nelas sem grande subtileza. O Homem de Lata de O Feiticeiro de Oz queria um coração. Não por capricho, mas porque reconhecia a sua própria limitação: era funcional, mas vazio; eficiente, mas desprovido de empatia. A sua jornada pela estrada de tijolos amarelos era, no fundo, um caminho de autoconsciência.


No futebol português, a história recente trouxe-nos uma versão alternativa dessa narrativa. O protagonista não precisa de percorrer quilómetros nem de pedir favores a um feiticeiro. Basta uma conferência de imprensa.


Rui Borges, treinador do Sporting, sempre cultivou a imagem de alguém que “não fala de arbitragens”. Uma espécie de superioridade moral competitiva, quase como quem diz: “eu estou acima disso”. Só que, ao primeiro abanão mais sério – no último jogo, frente ao AFS – lá vieram as queixas. Árbitros, decisões, prejuízos… tudo aquilo que, afinal, não fazia parte do seu vocabulário.

E é aqui que a metáfora dos tijolos amarelos deixa de ser poética e passa a ser mordaz.

A famosa estrada de O Feiticeiro de Oz não é apenas um caminho físico; é um símbolo de rumo, de consistência, de fidelidade a um propósito. Quem entra nela sabe ao que vai: procurar algo que lhe falta, mas com a honestidade de admitir essa falta. Ora, quando Rui Borges abandona o seu discurso inicial e entra no território das queixas arbitrais, não está a seguir a estrada, está a sair dela. E fá-lo sem sequer reconhecer que mudou de direção.

E mais, fá-lo num contexto em que o Sporting tem sido, de forma reiterada, associado a decisões favoráveis por parte da arbitragem, enquanto o Benfica tem vivido o cenário inverso. Ou seja, não só há incoerência no discurso, como há um evidente desalinhamento com a realidade competitiva recente.

Daí que a expressão popular ganhe um brilho especial: é preciso ter lata.

Mas há outro detalhe que enriquece e torna ainda mais ácida esta metáfora. A estrada de tijolos amarelos também foi reinterpretada por Elton John na icónica canção Goodbye Yellow Brick Road. Nela, o adeus à estrada simboliza a rejeição de uma vida artificial, construída sobre ilusões e expectativas alheias. É um regresso ao que é genuíno, despido de encenação.

Ora, no caso de Rui Borges, talvez o “adeus à estrada” tenha outro significado: não o de regressar à autenticidade, mas o de abandonar, sem grande cerimónia, a narrativa que construiu. A tal postura de quem não se queixa, de quem se foca apenas no jogo, de quem mantém uma linha. Tudo isso parece ter ficado pelo caminho.

E quando isso acontece, há algo inevitável: a máscara cai.

Não com estrondo, mas com aquele som discreto e revelador de quem já não consegue sustentar o personagem. O treinador que não falava de árbitros… fala. O que se dizia imune ao ruído… amplifica-o. E o que se apresentava como diferente… revela-se, afinal, perfeitamente alinhado com o mais comum dos expedientes. Não é bem o esplendor na relva, é mais o esplendor na … varanda.

Entretanto, dentro de campo, o Benfica vai fazendo o seu percurso, reconhecidamente sinuoso, mas lá o vai fazendo. Entre decisões desfavoráveis e necessidade de resposta, conseguiu reconstruir a sua posição e voltar a depender apenas de si próprio para assegurar o segundo lugar. Mais uva do que parra…

Talvez seja essa a verdadeira diferença entre quem percorre a estrada e quem apenas fala dela.

No fim, o Homem de Lata descobriu que sempre teve coração. Já Rui Borges parece ter descoberto outra coisa, que é quando a pressão aperta, os princípios são… negociáveis.

Mais do que lata, o futebol precisa de memória.

E essa, ao contrário do coração do Homem de Lata, não se compra ao Feiticeiro, o que, no caso de Rui Borges, não sendo falta de coração, é mesmo só lata.

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