Entre a grandeza competitiva e pequenez do ruído
Destacada postura apresentada pela equipa vermelha e branca no Santiago Bernabéu, numa partida onde encarnados deram tudo em campo
26 Fev 2026 | 13:35
Destacada postura apresentada pela equipa vermelha e branca no Santiago Bernabéu, numa partida onde encarnados deram tudo em campo
O futebol tem esta virtude rara: expõe, sem filtros, o carácter das equipas. E, ontem, no Santiago Bernabéu, o Benfica expôs carácter. Perdeu em Madrid frente ao Real, mas perdeu de pé. E isso, naquele palco e contra aquela estrutura competitiva, não é detalhe – é substância.
Durante largos períodos, o Benfica bateu-se de igual para igual com a equipa que, há anos, é referência mundial de excelência competitiva. Exibição personalizada, identidade clara, consistência nos momentos com bola e sem bola, agressividade positiva na pressão, domínio territorial e emocional em vários momentos do encontro. Não foi um exercício de resistência; foi uma afirmação de competência.
Os indicadores objetivos confirmam-no: superioridade em xG (expected goals), volume ofensivo significativo e múltiplas situações de finalização. O problema? O de sempre. Eficiência. Definição. Frieza no último terço. Faltou instinto assassino. Faltou aquela gula que distingue as equipas competentes das equipas superlativas.
E depois, claro, os detalhes. Dois erros. Um na transição ofensiva, outro num ataque deficiente à bola num momento de transição defensiva. Contra equipas como o Real Madrid, o erro não é um aviso – é uma sentença. Eles não perdoam. Podem ser dominados durante fases do jogo, mas à mínima oportunidade capitalizam. É essa a diferença entre quem compete muito bem e quem compete para ganhar tudo.
Ainda assim, o que o Benfica fez no Bernabéu não está ao alcance de qualquer equipa. Houve coragem estratégica, houve personalidade coletiva, houve compromisso competitivo. Os jogadores foram inexcedíveis na entrega, na intensidade e na crença. As hipóteses de vitória foram reais. Tangíveis. Não se tratou de uma ilusão estatística, mas de uma disputa efetiva pelo resultado.
É por isso que se torna particularmente indigesto ler, no rescaldo, os habituais arautos da desgraça. A ladainha do “clube sem rumo”, da “estrutura amadora”, do “presidente perdido”, do “não vi luta”, do “não temos garra”. A facilidade com que se reduz uma exibição desta qualidade a insultos primários – “é uma merda”, “não vale nada” – não é apenas injusta. É intelectualmente desonesta.
Criticar faz parte. Analisar falhas é obrigatório. Questionar opções estratégicas é saudável. Mas confundir análise com achincalhamento revela apenas pobreza argumentativa. Dizer que “não houve luta” num jogo em que o Benfica disputou cada lance, pressionou alto, ganhou duelos e criou mais perigo do que o adversário é ignorar a evidência empírica do jogo.
Há uma diferença entre exigência e miserabilismo. Entre ambição e destruição interna. O Benfica precisa, sim, de maior eficácia ofensiva. Precisa de médios com golo, como teve em ciclos recentes – perfis à imagem de Pizzi, João Mário, Rafa, Kökçü, Aktürkoğlu e Di Maria – jogadores capazes de acrescentar produção estatística consistente a partir da segunda linha. Precisa de transformar volume em concretização. Isso é análise estrutural.
Mas transformar uma prestação desta natureza num retrato de decadência institucional ou num festival de insultos é outra coisa. É ruído. É toxicidade. É um exercício de autoflagelação que nada acrescenta à exigência competitiva que se reclama.
O Benfica não ganhou. Mas competiu como grande. E isso, em Madrid, contra o Real, não é banal. O caminho para a excelência faz-se afinando detalhes e não demolindo o que está bem construído.
Entre a grandeza demonstrada em campo e a pequenez de certo discurso, a escolha deveria ser óbvia. Quem viu o jogo com honestidade intelectual sabe que ontem houve mais motivos para acreditar do que para destruir.
Por fim, há, ainda, que acrescentar mais um vencedor nesta contenda…a UEFA! Demonstrou de forma clara e objetiva (e abjeta) como se defendem – habilidosamente – os interesses dos seus associados… quando são coincidentes com os seus!
Que razão assiste à UEFA para condicionar a participação do Benfica nesta edição da Liga dos Campeões? Provavelmente, nenhuma, é-lhe um bocado indiferente. Já no caso do Real Madrid, estamos a falar de 120 milhões de razões…
A receita global da Liga dos Campeões anda na ordem dos 4 biliões de euros, os quais, direta (audiência global relevante) e indiretamente (perceção de valor do produto), recebem um contributo na ordem dos 3% por parte do Real Madrid. Ou seja, a UEFA estava em risco de perder o valor equivalente a um João Félix ou a um Enzo Fernández. Quem nunca…
Neste enquadramento, entre uma exibição que honrou o manto sagrado, a eficácia clínica de quem vive de transformar migalhas em ouro e a realpolitik de quem gere uma indústria multimilionária, impõe-se uma conclusão serena: o Benfica saiu de Madrid derrotado no resultado, mas valorizado na perceção competitiva. O que não pode sair derrotado é o discernimento. É legítimo exigir mais eficácia, mais frieza, mais capacidade de decisão; não é legítimo confundir exigência com difamação nem transformar complexidade estrutural em teoria conspirativa simplista. O futebol de elite joga-se em três planos – o tático, o emocional e o económico – e ontem o Benfica mostrou estar plenamente apto a competir no primeiro e no segundo. O terceiro não controla. Resta-lhe, portanto, continuar a aproximar-se da excelência onde pode intervir: na qualidade do jogo, na maturidade competitiva e na eficácia que transforma superioridade em vitória.
Tudo o resto é ruído – e o ruído (à semelhança, por vezes, do Pavlidis) não marca golos.
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