Ganhar, ganhar, ganhar… só que não!
Empate diante de Casa Pia pode acabar de vez com aspirações das águas ao título, algo impensável num Clube da dimensão do Benfica
08 Abr 2026 | 03:00
Empate diante de Casa Pia pode acabar de vez com aspirações das águas ao título, algo impensável num Clube da dimensão do Benfica
O empate do Benfica frente ao Casa Pia não foi apenas mais um deslize numa fase decisiva da época, foi, muito provavelmente, o momento em que a equipa comprometeu de forma quase definitiva as já ténues aspirações ao título e, mais preocupante ainda, deixou de depender apenas de si própria na luta pelo segundo lugar.
Num clube onde a margem de erro é historicamente próxima de zero, o que se viu em campo levanta questões que vão muito além do resultado.
O jogo teve um padrão que se tem repetido de forma inquietante: dificuldade em materializar a superioridade em golos, incapacidade de gerir momentos do jogo e, no limite, erros individuais com impacto direto no resultado.
Fazer 15 remates (embora apenas dois deles tenham sido enquadrados), ter 12 cantos (e só num deles foi criado verdadeiro perigo mas que resultou de um desvio para o poste da sua própria baliza de um jogador do Casa Pia), conseguir 83% de posse de bola (sim, leram bem, oitenta e três por cento de posse de bola), e permitir que o adversário marque na única aproximação com perigo que fez à área do Benfica e na sequência do seu único remate enquadrado é de tirar qualquer um do sério (como, aliás, bem se viu pela reação do Mourinho).
É que, 83% de posse de bola coloca um jogo aproximadamente no percentil 99.5 ou superior, ou seja, menos de 1 em cada 200 jogos poderá ser cenário de tão gritante desequilíbrio (nem o Barcelona, o Bayern ou o City sob o comando de Guardiola apresentavam percentagens tão elevadas… raramente ultrapassavam 70–75% de forma consistente e só chegavam aos 80% em jogos muito específicos contra blocos ultrabaixos*).
Mas estes 83% de posse também são paradoxais pois, por um lado, indicam um controlo territorial e técnico esmagador, mas o resultado demonstra uma ineficiência crítica, o que, futebolisticamente, se reflete num domínio estéril, i.e., muito controlo com pouca criação eficaz e muito tempo com bola, mas poucas decisões de alta qualidade/eficácia.
O risco, que o Benfica incorreu – por culpa própria – é a de que qualquer erro isolado tenha um impacto desproporcional, que foi exatamente o que aconteceu no lance do golo do Casa Pia, em algo muito aproximado ao conceito da Lei de Murphy.
E o paradoxo tem o seu culminar neste ponto: quanto maior é o domínio, menor é a margem para não ganhar; e é também aqui que a análise deixa de ser estatística e passa a ser estrutural, pois um jogo com 83% de posse que não é ganho não é apenas um acaso, é, quase sempre, um problema de eficácia, decisão e mentalidade competitiva que tende a apresentar este perfil: expected goals abaixo do esperado para o volume ofensivo; criação de poucas oportunidades claras; circulação excessiva e sem penetração; eficácia reduzida na finalização; e vulnerabilidade extrema a um erro isolado.
O lance protagonizado pelo António Silva não pode ser analisado isoladamente. Ele é, antes, sintomático de algo mais profundo: uma equipa que, em momentos críticos, revela fragilidade emocional e défice de leitura competitiva.
A questão central não é o erro em si, pois todos os jogadores erram. O problema é o contexto em que ele ocorre: num jogo onde o Benfica estava obrigado a ganhar e onde cada decisão deve ser filtrada por um princípio básico de risco mínimo.
Quando isso falha, entramos num território desconfortável, algures entre a ingenuidade e a incompetência. E, sendo intelectualmente honesto, preferir classificá-lo como “burrice competitiva” é quase um ato de benevolência, porque preserva a ideia de que há qualidade que não está a ser corretamente aplicada, em vez de sugerir ausência dela.
E para quem, ainda que legitimamente, insista em dizer que o António teve azar, permitam-me que contraponha, antes, com: ineficiência estrutural, défice de decisão e falta de instinto competitivo no momento crítico… ou falta de “fome”…
É neste contexto que surgem as declarações de José Mourinho após o jogo. Elas não foram apenas duras, foram cirúrgicas. Ao afirmar que há jogadores sem “fome de bola”, sem noção do clube que representam e ao admitir que alguns, por decisão sua, não voltariam a jogar, o treinador colocou o foco onde ele deve estar: na cultura competitiva.
Num clube como o Benfica, ganhar não é um objetivo, é uma obrigação estrutural. Não se trata de retórica, mas de identidade.
A ideia de que existem três resultados possíveis – “ganhar, ganhar e ganhar” – pode soar hiperbólico e “fora da caixa“, mas dentro do universo encarnado é simplesmente a tradução de uma exigência histórica.
Quando Mourinho questiona a interpretação que alguns jogadores fazem dessa realidade, está, na prática, a expor um desalinhamento entre o que o clube exige e o que a equipa entrega.
Seria redutor analisar este momento apenas do ponto de vista técnico ou tático. O Benfica não empata com o Casa Pia por falta de qualidade individual. O Benfica empata porque, em momentos chave, não age como uma equipa que internalizou a obrigação de ganhar.
Isso manifesta-se a vários níveis. Na tomada de decisões precipitadas quando o controlo do jogo é aquilo que se exige; na falta de agressividade competitiva após marcar o golo, que tanto trabalho deu a marcar; e na incapacidade de “matar” jogos que estão mais que ao seu alcance. Não é por acaso que uma equipa que permanece invencível nos jogos a contar para a Primeira Liga, se encontra a 7 pontos do líder! Só o adversário de ontem e o Estrela da Amadora têm mais empates que o Benfica (10), que soma 9, correspondente à perda de 18 pontos!! É o mesmo que 6 derrotas, tantas quanto aquelas que tem o adversário que nos sucede na classificação (SC Braga).
Este tipo de falhas não se corrige apenas com treino, corrige-se com cultura, liderança e, inevitavelmente, com consequências.
Ao contrário de outros contextos, onde a irregularidade pode ser absorvida, no Benfica cada deslize tem efeito multiplicador. Não apenas na classificação, mas na perceção externa e interna do projeto.
Perder a possibilidade de depender apenas de si próprio para alcançar o segundo lugar é, nesse sentido, mais do que um dado estatístico, é um sinal de perda de controlo competitivo.
E quando isso acontece, a resposta não pode ser neutra.
A frustração que resulta deste tipo de resultado é legítima e, em abono da verdade (e da minha sanidade mental), até inevitável. Mas ela deve ser canalizada para uma análise clara: há um problema de exigência interna que não está a ser cumprida por todos.
Mourinho identificou-o publicamente. Resta saber se o clube terá a capacidade e a coragem de agir em conformidade.
Porque, no Benfica, há uma verdade que não admite negociação: não basta jogar bem, nem sequer basta ser melhor. É preciso ganhar.
Sempre.
(*a propósito dos blocos ultrabaixos, que o Benfica enfrenta em 80% dos jogos que faz para o campeonato, talvez seja avisado pensar em começar esses jogos como se acabou o de ontem, em 3-2-5 (António, Otamendi e Dahl; Rios e Sudakov; Prestiani, Pavlidis, Anísio, Ivanovic e Schjelderup). Para um Casa Pia que jogou em 7-2-1 (2 laterais de cada lado; 3 centrais; 2 médios; e 1 avançado) e teve 17% de posse de bola, até quase que dava para dispensar o guarda-redes!)
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