Nuno Campilho
Biografiado Autor

18 Mar 2026 | 03:00

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Nuno Campilho

Prestação de José Bessa na partida entre Benfica e Arouca, da 26.ª jornada foi mais um exemplo do que se tem tornado recorrente esta temporada


O que se viu no Arouca–Benfica não foi apenas uma má arbitragem. Foi mais um capítulo de um padrão que muitos adeptos do Benfica, como eu, reconhecem há demasiado tempo – um padrão de decisões “habilidosas”, sempre inclinadas no mesmo sentido, sempre com os mesmos beneficiários indiretos.


José Bessa não teve uma noite infeliz. Teve uma noite coerente com aquilo que tem sido, demasiadas vezes, o critério aplicado ao Benfica: um rigor extremo para penalizar, uma tolerância quase displicente para proteger o adversário. Vai longe, na sua sub-reptícia forma de atuar, sem ser demasiado evidente, ou grave, ou, até, escandaloso, mas foi “moendo” o juízo aos jogadores do Benfica, tentando que perdessem o seu controlo emocional, o que, felizmente, não aconteceu.


Nisso ainda tem muito que aprender com o Jorge Coroado, esse paradigma da arbitragem “habilidosa” em Portugal. Quem não se lembra do Rio Ave- Benfica, jogo inaugural da época 1999-2000? Lançamento longo para a frente, com o Ronaldo a ganhar o espaço à frente do avançado vilacondense, para proteger a bola que seguia na direção do seu guarda-redes (o malogrado Robert Enke), sem qualquer obstrução, contacto físico faltoso, ou nada que se pareça. E o que faz o Coroado? Assinala falta! Ficou o “caldo entronado”, com o Ronaldo a protestar (com toda a razão) e a ver um duplo amarelo, e o Calado, que mal se aproximou da “confusão”, foi expulso com vermelho direto! Resultado, meia-hora a jogar com 9 e natural incapacidade para alterar o resultado que já se encontrava num empata a uma bola e assim terminou.

O penálti assinalado contra o Benfica encaixa na perfeição nessa lógica. Lances idênticos (ou até mais claros) raramente são sancionados a nosso favor. E isto de proteger o espaço – ação faltosa no tempo e no critério do Coroado – começa a fazer “escola”, depois da proteção do espaço por parte do Diogo Costa e da conquista do espaço por parte do defesa arouquense. O protagonista prejudicado, por sinal, é sempre o mesmo (e, depois, ainda se admiram que ande em seca de golos)… Já do outro lado, basta um contacto discutível para que a decisão surja pronta, firme, quase automática. Não é o lance isolado que indigna; é a consistência da desigualdade.

E depois há o silêncio sobre o que ficou por marcar. A falta sobre o Pavlidis (a que já fiz referência no parágrafo anterior) é paradigmática: num campeonato onde o VAR existe precisamente para corrigir erros evidentes, como é possível ignorar um lance destes? A resposta começa a tornar-se incómoda: não é incapacidade, é critério.

A atuação de José Bessa foi ainda marcada por uma postura que roça a arrogância institucional. Implicância sistemática com a marcação e o local de faltas a favor do Benfica (até implicou com o Schjelderup, por este estar a pedir aos jogadores do Rio Ave que faziam exercícios de aquecimento, que se afastassem um pouco para ele poder bater um pontapé de canto, minimamente, em condições), contrastando com permissividade no lado oposto; um amarelo exibido a António Silva antes sequer de este exercer o seu direito, enquanto capitão de equipa, de se dirigir ao árbitro (fez-me lembrar o Calado, no jogo que recordei acima); e, talvez mais grave, a gestão disciplinar absolutamente errática, como no caso do segundo amarelo perdoado ao guarda-redes do Arouca (lembrou-se, quando o ia mostrar, que ele já tinha um).

Quando um árbitro “esquece” um segundo amarelo num lance evidente (a má educação do Arruabarrena só encontra par na do Bessa), não estamos perante interpretação, estamos perante uma falha grave de autoridade e de equidade. Porque aquilo que ele foi demonstrando com os jogadores do Benfica, não era autoridade, era ditadura. Autoritário era o Collina… mas isso seria com comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira (e já nem falo da expulsão do Dedic, expulso pela segunda vez esta época. Adivinhem quem o expulsou da primeira vez? Pois…).

O episódio do puxão ao Dahl é outro sintoma de algo que vai além da arbitragem técnica. É uma questão de postura, de respeito e de controlo emocional. Um árbitro não pode ser protagonista, muito menos pela negativa.

E como ignorar o prolongamento artificial do jogo? Após o golo do Benfica, quando restavam escassos segundos do tempo adicional mínimo, foram concedidos mais três minutos. Não é gestão de tempo, é tentativa de manipulação da narrativa do jogo.

Tudo isto acontece num contexto mais amplo que não pode ser ignorado. Em Portugal, os organismos que tutelam o futebol continuam a falhar redondamente naquilo que deveria ser a sua função primordial: garantir transparência, equidade e confiança. Em vez disso, perpetuam um sistema opaco, onde decisões polémicas se acumulam sem consequências.

A escolha de José Bessa para este jogo levanta, no mínimo, sérias questões. Num país onde se conhece o historial e as simpatias de muitos intervenientes, designar um árbitro identificado como adepto do FC Porto para um jogo do Benfica não é apenas falta de sensibilidade, é um ato que roça a provocação institucional.

E quando somamos a isto o padrão de decisões que, direta ou indiretamente, parecem favorecer sistematicamente os mesmos – seja o Porto ou o Sporting – a dúvida deixa de ser “se” existe um problema e passa a ser “até quando” será tolerado.

O caso de José Mourinho só reforça essa perceção de desigualdade. Punido por uma ação que não praticou, num processo onde a evidência parece secundária, vê o seu recurso não ter efeito suspensivo. Resultado: ausência no banco em momentos decisivos. Compare-se com situações como o célebre caso do Palhinha ou, mais recentemente, do William Gomes, onde a interpretação foi, curiosamente (ou talvez não), favorável aos clubes requerentes. Por falar nisso… será que o Palhinha já cumpriu o jogo de castigo?!

Por isso, falar de coincidência é ofensivo… para a arbitrariedade da coincidência. E como isto não é (a menos que fosse pela futilidade e pela má qualidade) um romance da Margarida Rebelo Pinto, só pode ser padrão… e critério… arbitrário… o célebre critério às cores.

O Benfica não pede favores. Pede apenas o que deveria ser garantido à partida: justiça, coerência e respeito. Mas quando jogo após jogo, decisão após decisão, o clube é colocado numa posição de desvantagem estrutural, torna-se impossível não questionar a integridade do sistema.

Isto não é apenas sobre um árbitro. É sobre uma cultura. Uma teia de interesses, cumplicidades e silêncios que continua a minar a credibilidade do futebol português.

E a pergunta que fica é simples: quantas mais “arbitragens habilidosas” serão necessárias até que alguém, finalmente, tenha a coragem – e a vergonha na cara – de mudar isto?

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