Nuno Campilho
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17 Set 2026 | 18:35

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Nuno Campilho

O futebol moderno exige plantéis, não apenas onzes, e o que Marco Silva fez em Milão é talvez uma das melhores demonstrações disso mesmo


Milão é uma cidade onde se respira futebol, moda, design e, naturalmente, gastronomia. É também uma cidade onde o Benfica escreveu mais uma página relevante da sua história europeia, ao vencer o AC Milan num dos palcos mais emblemáticos do futebol mundial. Mas, mais do que o resultado, mais do que a dimensão do adversário e mais do que a imponência de San Siro, a noite de Milão deixou uma evidência que merece ser sublinhada: no futebol de alto rendimento, treinar não basta.


Daí o trocadilho. Quando Pasta Non Basta.


Porque houve pasta, houve Itália e houve San Siro. Mas houve também liderança, gestão, motivação, capacidade de decisão e, sobretudo, uma ideia de equipa que começa a ultrapassar a mera dimensão do onze inicial.

Marco Silva já demonstrou que sabe treinar o Benfica. O que começa a ser particularmente interessante é perceber que o seu trabalho não se esgota no treino, no modelo de jogo ou na preparação estratégica dos adversários. Há uma dimensão de liderança e de gestão de pessoas que está a assumir uma importância cada vez maior na forma como esta equipa compete.

E é precisamente aqui que começa a aparecer a diferença entre ter uma equipa bem treinada e ter uma equipa verdadeiramente preparada para competir.

O futebol moderno exige plantéis, não apenas onzes, e o que Marco Silva fez em Milão é talvez uma das melhores demonstrações disso mesmo.

Nove alterações relativamente à equipa que tinha iniciado o jogo com o Gil Vicente, o que torna difícil encontrar melhor teste à solidez de um processo. Porque mudar nove jogadores e, ainda assim, manter a equipa competitiva, organizada, agressiva e fiel aos seus princípios não acontece por acaso. Se a identidade de uma equipa depender demasiado dos seus titulares, então não existe propriamente um modelo consolidado: existe uma dependência de determinados intérpretes.

Em Milão, o Benfica mostrou o contrário, pois mudaram os jogadores, mas não mudou a equipa.

Manteve-se a pressão, mantiveram-se os mecanismos de reação à perda, mantiveram-se os timings de abordagem, mantiveram-se as distâncias entre setores, manteve-se a capacidade de condicionar a saída do adversário e, sobretudo, manteve-se a convicção de que havia um plano para o jogo, e é isto que significa ter processo.

Há aqui uma ligação que me parece evidente com a gestão empresarial que não é meramente metafórica.

Um bom gestor não é aquele que consegue fazer uma equipa funcionar apenas quando tem os seus melhores elementos disponíveis. É aquele que consegue criar uma organização suficientemente robusta para que diferentes pessoas, com diferentes competências, personalidades e níveis de experiência, sejam capazes de contribuir para um objetivo comum.

Mais importante ainda: um bom líder consegue fazer com que aqueles que não estão a jogar continuem a sentir-se importantes, o que, no futebol, se torna decisivo.

Um jogador que passa semanas no banco pode facilmente desligar-se emocionalmente do processo. Um jogador que é criticado pode perder confiança. Um jogador que sente que não conta pode deixar de investir da mesma forma no treino. E um treinador que não sabe gerir estas situações acaba, inevitavelmente, por criar grupos dentro do grupo.

Marco Silva, ao invés, parece estar a fazer precisamente o contrário, construindo um plantel em que os jogadores percebem que as oportunidades existem, mas que também percebem que essas oportunidades têm de ser aproveitadas quando chegam.

Talvez seja por isso que alguns dos casos individuais desta equipa mereçam uma leitura diferente daquela que lhes tem sido dada.

Lukebakio é um exemplo. Kaminski é outro. Trubin é provavelmente o mais evidente, dado que o guarda-redes ucraniano esteve longe de ser consensual entre os adeptos. Houve momentos em que parecia ter perdido definitivamente o capital de confiança junto das bancadas. Um treinador menos convicto poderia facilmente ter cedido à pressão exterior e nunca mais apostar nele.

Marco Silva fez o contrário: continuou a trabalhar com o jogador, continuou a exigir-lhe, continuou a transmitir-lhe confiança e, sobretudo, continuou a acreditar que poderia recuperar o seu melhor nível. Isso é treinar, obviamente, mas é, acima de tudo, liderar.

O mesmo pode dizer-se de Lukebakio ou Kaminski. Recuperar um jogador não significa simplesmente voltar a colocá-lo no onze. Significa reconstruir confiança, devolver-lhe responsabilidades e fazê-lo perceber que ainda existe um papel importante para desempenhar.

É uma tarefa de gestão de pessoas. E, como qualquer gestor sabe, gerir pessoas é muito mais complexo do que distribuir tarefas.

O caso do Sudakov, ao qual já me dediquei várias vezes, encaixa igualmente nesta lógica, sendo fácil reduzir o ucraniano àquilo que ainda não está a produzir em golos e assistências, mas Marco Silva parece estar a avaliar o jogador através de um prisma substancialmente mais amplo, porque o Benfica que está a construir precisa de jogadores capazes de interpretar o modelo, e não apenas de jogadores capazes de produzir números individuais.

A insistência em Sudakov, tal como a confiança depositada noutros jogadores que ainda não tinham conquistado unanimidade, diz muito sobre a forma como Marco Silva está a gerir o grupo. Não parece procurar apenas os jogadores mais populares ou aqueles que oferecem respostas estatísticas imediatas. Procura os jogadores que melhor executam aquilo que pretende da equipa.

Depois ainda há os jogadores em quem seria muito mais fácil não apostar. Circati, Banjaqui e El Karouani são exemplos claros.

Dar-lhes oportunidades é uma coisa. Colocá-los num contexto de máxima exigência, num estádio como San Siro, e esperar deles uma resposta competitiva é outra completamente diferente. Marco Silva fê-lo e eles responderam.

É assim que se constrói um plantel, não através de onze jogadores intocáveis e de um conjunto de suplentes que apenas entra quando alguém se lesiona, mas através de um grupo de jogadores que sabe que poderá ser chamado a qualquer momento e que, quando isso acontece, tem de estar preparado para manter a identidade da equipa.

O Benfica não ganhou apenas porque alguns jogadores tiveram uma grande noite. Ganhou porque, apesar das nove alterações, conseguiu reproduzir comportamentos que já reconhecemos como sendo seus.

A pressão alta continuou a existir. Os momentos de pressão continuaram a ser coordenados. Os timings continuaram a ser agressivos. A equipa continuou a procurar recuperar a bola em zonas adiantadas e a transformar essas recuperações em oportunidades para atacar uma defesa adversária desorganizada.

Isto é particularmente importante porque não estamos a falar de uma característica meramente estética, é uma forma de jogar que exige enorme compromisso coletivo.

Por isso, quando uma equipa consegue mudar nove jogadores e continuar a executar o mesmo modelo, aquilo que está verdadeiramente a funcionar não são apenas os jogadores.

É o processo.

E, agora... Dragão! Leram o que acabei de escrever? Não tem nada a ver... (ou terá?!).

Até para a semana!

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Nuno Campilho
Nuno Campilho

17 Set 2026 | 18:35

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Nuno Campilho
Bernardo Alegra

10 Set 2026 | 09:54

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Jogar à Benfica

O que é isso? Um chavão vazio, dirão os ignorantes. Uma visão romântica e utópica, dirão os descrentes? Uma impossibilidade, dirão os incompetentes. Só que não

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Nuno Campilho
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17 Set 2026 | 18:35

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Bernardo Alegra
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