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04 Set 2026 | 14:13
Influência de Georgiy Sudakov vai muito além das estatísticas, sendo determinante na pressão alta e no equilíbrio coletivo da equipa
Num futebol cada vez mais dominado pela estatística e pelos resultados imediatos, existe uma tendência perigosa para avaliar jogadores exclusivamente através dos números mais visíveis: golos, assistências, remates enquadrados ou participações diretas em lances de finalização.
É uma abordagem compreensível. Afinal, o futebol continua a ser decidido em função da maior ou menor quantidade de golos que se marcam. O problema surge quando essa análise ignora tudo aquilo que permite que esses golos aconteçam (ou não).
O Benfica de Marco Silva é, talvez, o melhor exemplo disso mesmo neste início de temporada. Desde os primeiros jogos oficiais que se tornou evidente que o treinador não pretende apenas uma equipa dominadora com bola. Pretende, sobretudo, uma equipa dominadora sem bola.
Durante muitos anos habituamo-nos a dividir o jogo em ataque e defesa, mas o futebol moderno já não funciona assim, sendo que as melhores equipas europeias encaram a recuperação da posse como o primeiro momento ofensivo e não como o último momento defensivo, durante o qual o objetivo não é apenas recuperar a bola, mas, sim, fazê-lo o mais perto possível da baliza adversária.
Quando isso acontece, eliminam-se várias fases da construção ofensiva e criam-se condições para atacar uma defesa desorganizada, com menos metros para percorrer, menos adversários para ultrapassar e mais probabilidade de criar ocasiões de golo.
Para que isto funcione não basta correr, é preciso saber pressionar e, sobretudo, é preciso saber quando pressionar.
Observamos frequentemente um jogador a correr na direção de um defesa e concluímos que está a pressionar, quando, na realidade, a pressão eficaz é muito mais complexa.
A diferença entre recuperar uma bola e abrir um enorme espaço nas costas pode resumir-se a um segundo. Pressionar demasiado cedo permite ao adversário encontrar soluções e pressionar demasiado tarde permite-lhe executar confortavelmente, daí o segredo estar no timing.
É precisamente aqui que o Sudakov tem desempenhado um papel absolutamente determinante, estando a ser utilizado numa função que vai muito além da criação ofensiva.
Na organização defensiva do Benfica, o internacional ucraniano tornou-se uma peça-chave na primeira linha de pressão, partindo frequentemente de posições interiores sobre o corredor esquerdo do ataque encarnado e sendo responsável por condicionar a primeira fase de construção adversária, especialmente sobre o central do lado direito ou sobre os apoios interiores que surgem nessa zona.
Não é um trabalho particularmente glamoroso, não viraliza, não produz estatísticas apelativas, mas produz algo muito mais importante que são os comportamentos coletivos.
Não é por acaso que ao longo das últimas jornadas tem sido possível observar uma evolução clara na qualidade dos seus movimentos, pois a sua pressão deixou de ser apenas intensa, para passar a ser coordenada e inteligente, no exato momento em que o portador da bola fica mais vulnerável.
Essa evolução tem permitido ao Benfica recuperar inúmeras bolas em zonas adiantadas e impedir que os adversários consigam iniciar transições ofensivas com qualidade, o que corresponde, igualmente, a uma das evoluções mais interessantes do Sudakov enquanto jogador.
Quando chegou, a esmagadora maioria das análises incidia sobre a sua criatividade, capacidade técnica, visão de jogo e último passe, sendo por poucos identificado como um jogador particularmente agressivo sem bola, com uma disciplina tática rigorosa e como um elemento determinante na organização defensiva.
Marco Silva intuiu (não é que tenha visto... até porque não tinha muitas outras soluções no plantel para esse efeito) e teve a coragem de insistir, ao ponto de hoje se tornar evidente que o treinador encontrou no jogador características que muitos não tinham valorizado e não tinham percebido que podiam ser desenvolvidas.
Por isso é que, se há quem defenda a continuidade do Sudakov no onze inicial (sei que não há muitos e que eu serei um dos poucos), então terá necessariamente de reconhecer que essa aposta não nasce por acaso, mas, sim, de uma leitura técnica e estratégica que, até ao momento, os acontecimentos em campo têm vindo a validar, como foi o caso do jogo com o Estoril enquanto exemplo quase académico da importância destes comportamentos.
Com o Sudakov em campo, o Benfica conseguiu condicionar eficazmente as saídas do lado direito da construção estorilista, em particular por parte do Ferro, que raramente encontrou condições para executar passes longos de qualidade ou mudar rapidamente o centro do jogo, enfrentando uma pressão que chegava sempre no momento certo.
Consequentemente, o Estoril foi sendo obrigado a jogar mais curto, mais condicionado e com menor capacidade para explorar os espaços laterais, o que mudou após a saída do Sudakov.
Naturalmente, seria intelectualmente desonesto atribuir tudo a uma única substituição, até porque a alteração simultânea de praticamente toda a frente de ataque teve impacto evidente na coordenação coletiva da pressão.
Mas voltemos ao Sudakov.
A partir desse momento começaram a surgir situações que não tinham existido até então, com o Ferro a encontrar espaço e tempo para levantar a cabeça, a conseguir executar saídas limpas e a efetuar passes longos para o lado esquerdo do seu ataque. Numa dessas situações nasceu, precisamente, a jogada que culminou no golo do Estoril.
Para mim, a coincidência é demasiado evidente para ser ignorada... enquanto o Sudakov esteve em campo, esse problema simplesmente não existiu.
Ainda assim, quantos adeptos terão registado estes comportamentos? E quantos perceberam que a qualidade da pressão diminuiu, com o Ferro a começar a receber a bola em condições diferentes? E, acima de tudo, quantos relacionaram isso com a alteração da primeira linha de pressão?
Hum...
É, efetivamente, muito mais fácil olhar para uma folha de estatísticas e verificar quantos golos ou assistências um jogador produziu (eu lá tenho a culpa que haja gente tão preguiçosa, para não lhes chamar outra coisa...), a questão - que teima em não penetrar em mentes tacanhas - é que o futebol raramente é assim tão simples.
Se fosse, os departamentos de análise dos grandes clubes europeus podiam ser substituídos por uma simples consulta ao Flashscore (onde muitas das ações mais importantes do jogo não aparecem nos números mais populares).
Um jogador pode não assistir, pode não marcar, pode até passar despercebido ao adepto menos atento, et voilá, ainda assim ser absolutamente determinante para o funcionamento coletivo da equipa.
E será que também já alguém pensou que é talvez por isso que o Marco Silva continua a apostar no Sudakov. Não é porque ignora os números ou porque é teimoso, mas porque vê aquilo que muitos não veem (por isso é que é ele que lá está e não qualquer um de nós... para ver o que raramente vemos - seja isso racional ou emocional - comportamentos, ocupação de espaços, coberturas, distâncias, timings, relações coletivas...). E é precisamente nesse (para alguns) metaverso, que o Sudakov tem sido um dos jogadores mais importantes do Benfica.
Não deixa, no entanto, de ser legítimo exigir mais golos e mais assistências a um jogador com o seu talento, até porque não tenho dúvidas que seja o primeiro a exigir isso de si próprio.
Não podemos é reduzir a sua influência no Benfica a esses números sem correr o risco de incorrer numa simplificação grosseira da realidade.
O Marco Silva construiu uma equipa que vive muito da pressão alta, da recuperação imediata e da capacidade para sufocar a construção adversária e, nesse contexto, o Sudakov tornou-se uma peça fundamental, tendo o jogo com o Estoril demonstrado de forma particularmente elucidativa essa importância.
Enquanto esteve em campo, os timings de pressão funcionaram e quando saiu, deixaram de funcionar com a mesma eficácia. Constatação que não aparece nas estatísticas e que faz desencadear o verdadeiro problema que é o facto de, para alguns (muitos? demais?), o futebol continuar a começar e a acabar nos golos e nas assistências.
É uma pena... sobretudo porque o jogo de per se, felizmente, continua a ser bastante mais inteligente do que certas análises.
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