Nuno Campilho
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28 Out 2026 | 19:11

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Nuno Campilho

... ou de como a normalização do disparate passou a ser um referencial no futebol português: há uma nova categoria disciplinar


Há uma nova categoria disciplinar no futebol português: as palavras impercetíveis com consequências perfeitamente percetíveis. Não se percebe o que um jogador diz, mas determina-se o efeito do que disse.


O caso de Jhon Durán, no final do Santa Clara–Benfica, merece entrar para os manuais. Não de arbitragem, mas da criatividade (as palavras "mais fortes" esgotaram-se no título).


De acordo com a fundamentação do árbitro, o jogador foi provocado e respondeu com «palavras impercetíveis», tendo essas palavras contribuído para propagar o conflito generalizado.

Como é que palavras impercetíveis podem contribuir para o que quer que seja, a menos que seja para uma manifestação de incompreensão?

Se as mesmas fossem acompanhadas de gestos, do avançar sobre alguém, de empurrar ou de adotar uma postura agressiva, ainda se poderia dar o benefício da dúvida, no entanto,se o singelo fundamento são palavras cujo conteúdo não foi compreendido, é indispensável esclarecer o que permite atribuir-lhes aquele efeito. Desenganem-se, pois, a partir daqui, a criatividade do Cláudio Pereira esgotou-se... assim como a minha paciência para estas cretinices recorrentes, que agora até permitem que uma expulsão fique entregue à interpretação de uma interpretação.

Importa, a esta altura, referir que todo este "depois", tem um "antes". Vejamos...

Bah cometeu uma falta e viu amarelo. A facilidade com que essa exigência parece desaparecer quando procuramos o mesmo critério nos contatos seguintes, nas entradas sobre o próprio Bah e nas sucessivas interrupções do adversário, é aquela recorrência que me faz perder a paciência, que me cansa a tentar perceber como é que este "futebol" (não é por acaso que está entre aspas) é jogado.

Nunca pugnei pela imunidade - ou impunidade - disciplinar para os jogadores do Benfica. Apenas quero conseguir reconhecer a mesma exigência quando muda a camisola de quem faz a falta. Será pedir muito?! Os acontecimentos parecem demonstrá-lo... desculpem qualquer coisinha...

O mesmo se aplica aos penáltis. Um penálti contra o Benfica, se o for, deve ser, naturalmente, marcado (eu, ao contrário de outros, sou coerente). Mas a convicção numa área tem de ser acompanhada pelo mesmo escrutínio na outra. E, quando um lance deixa dúvidas, quem transmite tem uma obrigação elementar de mostrar os elementos disponíveis para que se possa formar uma opinião.

Sport TV, está aí alguém? Há outros ângulos? Há uma sequência mais esclarecedora? Mostrem-na. Depois ainda falam da BTV (será que ainda aparece por aí uma imagem de telemóvel captada desde a bancada?!).

Continuando... uma entrada dá expulsão num estádio e amarelo noutro. Uma interrupção de um ataque provoca uma decisão num sábado e outra na segunda-feira. Há diferenças relevantes entre os lances? Expliquem-nas. É para isso que devem servir a análise e a comunicação da arbitragem, e não para passar a mão pelas costas e complementar as reformas de tipos que nunca foram bons árbitros e que, atualmente, ainda são piores analistas, o que não deixa de lhes garantir a coerência que a mim mesmo eu imponho.

O critério não pode ser um segredo que só se revela depois de conhecido o beneficiário da decisão.

O quadro comparativo que circula nas redes sociais (e é bom assumi-lo, pois não tenho problemas nenhuns em respeitar a necessidade de aferir da sua fiabilidade) apresenta uma diferença que merece discussão: no campeonato português, o FC Porto surge com 12,8 faltas por cartão amarelo; na Liga dos Campeões, com 4,6. Para o Benfica, os valores apresentados são 5,3 na Liga e 5,4 na Europa. Para o Sporting, 5,1 e 7,0, respetivamente.

Se estes valores forem confirmados para períodos e critérios de contagem comparáveis, o contraste é expressivo. O Benfica mantém praticamente o mesmo rácio. O Porto aproxima-se das treze faltas por amarelo em Portugal e fica abaixo das cinco na Europa.

O que explica tamanha diferença?

Seria intelectualmente desonesto transformar uma média numa prova automática de favorecimento. Mas seria igualmente desonesto fingir que uma disparidade destas não merece análise.

Analisem-se os lances. A reincidência. As faltas táticas. Os ataques interrompidos. As entradas que condicionam um adversário. Perceba-se se a agressividade competitiva encontra cá uma tolerância que desaparece nas competições europeias.

Porque a disciplina também define a liberdade com que uma equipa joga (os meus amigos portistas não vão gostar nada de ler esta frase), e um cartão que fica no bolso também participa no jogo.

Tenho uma aversão demasiadas vezes propalada pela dualidade de critérios. Não nasceu neste jogo e não desapareceu com a vitória nos Açores. Aliás, discutir arbitragem depois de ganhar tem essa vantagem: retira o cómodo argumento de que tudo não passa de uma desculpa para o resultado.

Também não atribuo à arbitragem todas as dificuldades do Benfica. A equipa tem de jogar mais, finalizar melhor e corrigir os seus erros. Mas essa responsabilidade não absolve os restantes intervenientes das suas.

Exigir mais ao Benfica não dispensa exigir competência a quem o arbitra.

Cinco pontos de distância para o primeiro lugar não demonstram, por si, prejuízo arbitral. Também não tornam irrelevantes decisões capazes de condicionar jogos e retirar jogadores dos seguintes. O campeonato disputa-se com pontos, mas constrói-se lance a lance, decisão a decisão.

A credibilidade exige explicações, decisões fundamentadas e capacidade para corrigir. Quando a resposta habitual é esperar que a polémica passe, a desconfiança fica.

Já cansa (a começar por mim próprio) voltar a este assunto. Mas o cansaço não pode servir de autorização para aceitar tudo.

As palavras podem ser impercetíveis.

A obrigação de prestar contas é bastante clara.

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Nuno Campilho
Nuno Campilho

Da impercetibilidade da cretinice, à percetibilidade das consequências...

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