Marco Silva e o Benfica do processo: Quando a ideia começa a vencer
Há treinadores que ganham porque encontram soluções para cada jogo. Há outros que ganham porque acreditam profundamente numa ideia
19 Ago 2026 | 10:49
Há treinadores que ganham porque encontram soluções para cada jogo. Há outros que ganham porque acreditam profundamente numa ideia
Depois de um (relativamente) longo período de ausência reflexivo, condizente com a frustração que reinou entre todos os benfiquistas, entre os quais me incluo, fruto de uma época pífia, que se saldou pelo inconsequente término da época sem qualquer derrota a contar para a Primeira Liga e cuja satisfação é tão efémera quanto a glorificação que isso nos trouxe, ou seja, nenhuma, volto ao vosso convívio para uma apreciação centrada no novo treinador, no seu modelo e na figura dos treinadores de processo.
Há treinadores que ganham porque encontram soluções para cada jogo. Há outros que ganham porque acreditam profundamente numa ideia e insistem nela até que os jogadores a transformem numa segunda natureza. Marco Silva parece enquadrar-se claramente neste segundo grupo.
Durante anos, em Portugal, habituámo-nos a associar o conceito de "treinador de processo" a nomes como Guardiola, Klopp, Arteta, Bielsa, Gasperini ou, recuando algumas décadas, Arrigo Sacchi. Treinadores que não moldam a sua identidade aos adversários, mas procuram moldar os adversários à sua identidade.
Roger Schmidt foi, no Benfica, um desses casos. Também ele chegou com uma ideia muito própria de jogo: pressão alta (o, entretanto, tornado famoso, mas já há muito presente em algumas equipas "de processo", 'gegenpressing'), recuperação rápida, verticalidade e agressividade ofensiva. Durante largos períodos, sobretudo na sua primeira época, o Benfica tornou-se praticamente imparável porque a execução do modelo atingiu níveis elevadíssimos.
Marco Silva parece estar a percorrer um caminho semelhante.
Confesso que inicialmente tive dificuldades em compreender exatamente o que pretendia construir. Mas os primeiros jogos da época começam a revelar um padrão demasiado consistente para ser ignorado. O Benfica joga quase sempre permanentemente instalado no meio-campo adversário, povoando os espaços próximos da área contrária com um número elevado de jogadores, pressionando de forma sufocante após cada perda de bola e transformando cada erro adversário numa oportunidade imediata de ataque.
A goleada ao Casa Pia foi, nesse sentido, particularmente elucidativa.
O resultado pode sugerir uma noite de eficácia extraordinária, mas a verdade é que muitos dos mecanismos já haviam sido visíveis na primeira jornada. A diferença esteve essencialmente na finalização. As ocasiões já existiam; faltava apenas transformá-las em golos.
O que se começa a perceber é que Marco Silva pretende construir um Benfica que ataque com cinco homens, que pressione com cinco homens e que obrigue o adversário a viver permanentemente desconfortável.
E é precisamente aqui que surge uma das figuras centrais deste modelo: Vangelis Pavlidis.
Mais do que um finalizador, o grego funciona como a peça que dá sentido a grande parte da construção ofensiva encarnada. Os seus apoios frontais permitem que os médios ofensivos e os extremos recebam a bola já orientados para a baliza adversária. Em vez de receberem de costas, recebem de frente. Em vez de terem de construir, podem acelerar.
É um trabalho muitas vezes invisível para quem olha apenas para os números, mas absolutamente decisivo para quem procura compreender o funcionamento coletivo da equipa.
Pavlidis fixa, segura, combina e devolve. E, ao fazê-lo, cria constantemente condições para que os jogadores que o rodeiam apareçam em zonas de finalização.
Mas talvez o aspeto mais interessante deste Benfica seja a assimetria ofensiva que Marco Silva parece estar a desenvolver.
O lado direito apresenta uma dinâmica muito própria.
Rafa, Barreiro e Bah criam sucessivas situações de superioridade numérica através de movimentos coordenados, tabelas curtas, trocas posicionais e constantes chegadas à linha. O objetivo é claro: desorganizar o bloco adversário e criar espaço para cruzamentos atrasados ou entradas rápidas na área.
É um futebol mais elaborado, mais associativo, mais "rendilhado".
Contudo, Barreiro desempenha simultaneamente uma função de enorme relevância estrutural. Apesar das frequentes incursões ofensivas, mantém sempre uma proximidade razoável a Barrenechea, impedindo que o argentino fique completamente isolado na cobertura das transições.
Porque, olhando para a disposição ofensiva da equipa, não é exagerado afirmar que, em muitos momentos, o Benfica ataca praticamente com cinco avançados, um único médio e quatro defesas, sendo que os laterais surgem tão projetados que frequentemente parecem extremos.
E isso exige equilíbrios.
Do lado esquerdo, o cenário é diferente.
Prestianni tende a permanecer mais aberto, mais colado à linha, sem o mesmo tipo de apoio lateral ou interior que existe à direita. Também porque Sudakov desempenha uma função distinta.
O ucraniano é, provavelmente, o jogador mais importante para ligar o jogo na zona central, entrelinhas, à entrada da área, com propensão para atuar mais à esquerda. Surge frequentemente próximo de Pavlidis, participa nas combinações interiores e é muitas vezes o primeiro destinatário dos passes de rotura de Barrenechea, mesmo não sendo esse o seu forte (mas até isso o Marco Silva tem trabalho, é tão visível, que é só estúpido não o assumir).
Enquanto a direita privilegia a associação curta e os movimentos combinados, a esquerda procura mais a progressão vertical.
De um lado, tabelas.
Do outro, aceleração.
De um lado, construção paciente.
Do outro, ataque direto ao espaço.
Essa complementaridade torna o ataque benfiquista muito mais difícil de defender.
É precisamente neste contexto que surge o caso Sudakov.
As suas qualidades técnicas são evidentes. A visão de jogo, a capacidade para receber entre linhas, a inteligência posicional e a qualidade do último passe justificam que se conte com ele.
Contudo, o rendimento individual ainda não correspondeu totalmente às expectativas criadas.
Muitos treinadores cederiam à tentação de procurar soluções imediatas.
Os treinadores de processo não funcionam assim.
Guardiola insistiu em Foden antes de este explodir.
Klopp insistiu em Robertson quando muitos o consideravam insuficiente para um candidato ao título.
Arteta suportou dois anos de críticas enquanto consolidava o seu modelo.
Gasperini transformou jogadores aparentemente comuns em referências europeias através da repetição sistemática dos mesmos princípios.
Marco Silva parece acreditar que Sudakov possui características que considera essenciais para o funcionamento do sistema. E, por isso, continua a apostar nele.
Não por teimosia.
Mas porque sabe que a confiança também se constrói através da continuidade.
Quando um treinador transmite a um jogador que continuará a acreditar nele mesmo nos momentos menos conseguidos, está simultaneamente a investir no seu crescimento e a reforçar a cultura coletiva da equipa.
Mas nenhum modelo é perfeito.
E os riscos deste Benfica são tão evidentes quanto as suas virtudes.
Quando a primeira linha de pressão é ultrapassada, abre-se uma quantidade significativa de espaço nas costas dos jogadores mais adiantados. Se os timings de pressão falharem ou se a reação à perda não for suficientemente agressiva, o adversário encontra metros para correr e tempo para decidir.
Quanto mais alta é a linha, maior é o risco.
E é aqui que entram as características individuais dos jogadores.
Barrenechea tem qualidade na ocupação de espaços e na saída de bola, mas não é propriamente um destruidor de jogo.
Um médio com características mais próximas das de João Palhinha acrescentaria capacidade de recuperação, agressividade defensiva, poder físico e cobertura territorial. Não resolveria todos os problemas, mas reduziria significativamente a vulnerabilidade em transição.
Da mesma forma, um defesa-central mais dominante fisicamente poderia oferecer uma margem adicional de segurança.
Sobretudo num contexto em que os centrais são frequentemente obrigados a defender muitos metros de profundidade e a ganhar duelos individuais em campo aberto.
Além disso, a presença de um central forte no jogo aéreo teria benefícios evidentes nas duas áreas: maior segurança defensiva e maior capacidade para aproveitar bolas paradas ofensivas.
Por fim, merece reflexão a questão da baliza.
A aposta em Samuel Soares não parece ser apenas uma escolha de presente; parece ser uma escolha de modelo.
Num Benfica que pretende jogar permanentemente alto, o guarda-redes deixa de ser apenas o último defensor e passa a ser também o primeiro construtor.
Precisa de jogar longe da baliza, controlar a profundidade, oferecer linhas de passe e participar ativamente na circulação.
O Samuel parece oferecer precisamente essas características.
Marco Silva procura um guarda-redes compatível com a sua ideia de jogo e não apenas um guarda-redes capaz de defender remates.
E talvez seja essa a principal conclusão deste início de temporada.
Durante semanas, muitos procuraram perceber o que Marco Silva queria fazer.
Hoje, começa a ser mais fácil responder.
Quer construir uma equipa que viva no meio-campo adversário.
Que pressione até recuperar.
Que ataque com muitos.
Que arrisque muito.
E que aceite conviver com alguns perigos porque acredita que as vantagens superam largamente os riscos.
Os treinadores de processo vivem e morrem pelas suas ideias.
Quando os resultados não aparecem, são acusados de teimosia.
Quando aparecem, a teimosia passa a chamar-se convicção.
E, para já, tudo indica que Marco Silva está cada vez mais próximo da segunda definição.
Marco Silva e o Benfica do processo: Quando a ideia começa a vencer
Há treinadores que ganham porque encontram soluções para cada jogo. Há outros que ganham porque acreditam profundamente numa ideia
APONTAMENTO – Vermelho e Branco ONTEM CILINDRÁMOS – PROBLEMA OU SOLUÇÃO?
Críticas a Rui Costa por uma preparação de época tardia, falta de reforços e ausência de respostas perante as polémicas do Clube encarnado
Regresso ao passado
Entre o déjà vu e a desesperança, Clube da Luz está a repetir erros de outras épocas e declínio encarnado parece longe de terminar
Marco Silva e o Benfica do processo: Quando a ideia começa a vencer
Há treinadores que ganham porque encontram soluções para cada jogo. Há outros que ganham porque acreditam profundamente numa ideia
19 Ago 2026 | 10:49
APONTAMENTO – Vermelho e Branco ONTEM CILINDRÁMOS – PROBLEMA OU SOLUÇÃO?
Críticas a Rui Costa por uma preparação de época tardia, falta de reforços e ausência de respostas perante as polémicas do Clube encarnado
31 Jul 2026 | 11:30
Regresso ao passado
Entre o déjà vu e a desesperança, Clube da Luz está a repetir erros de outras épocas e declínio encarnado parece longe de terminar
29 Jul 2026 | 09:34
SUBSCREVER NEWSLETTER