O concorrente do Preço Certo e o vendedor de gelados
Há jogos que, no final, deixam a estranha sensação de que o principal protagonista entrou em campo equipado com um apito e uma tabela de preços variável
22 Set 2026 | 18:32
Há jogos que, no final, deixam a estranha sensação de que o principal protagonista entrou em campo equipado com um apito e uma tabela de preços variável
Há jogos que se decidem pela qualidade dos jogadores. Há jogos que se decidem pela estratégia dos treinadores. E há jogos que, no final, deixam a estranha sensação de que o principal protagonista entrou em campo equipado com um apito e uma tabela de preços variável.
O FC Porto - Benfica do último domingo pertence, pelo menos em parte, a esta última categoria.
Ao longo dos noventa minutos, Miguel Nogueira fez-me recordar um concorrente do Preço Certo. Não um daqueles concorrentes que estudam os produtos, conhecem os valores e mantêm a serenidade perante a pressão da assistência. Refiro-me antes àquele concorrente que sabe perfeitamente que a torradeira custa 50 euros, mas que, à medida que o público começa a gritar, a gesticular e a pressionar, começa a duvidar de si próprio. Primeiro diz 50. Depois acha que talvez sejam 40. A seguir passa para 65. Finalmente acaba nos 32,50 euros. A torradeira continua a ser exatamente a mesma. O que mudou foi apenas o ruído em redor.
Durante largos períodos do clássico, o critério disciplinar pareceu obedecer precisamente a esta lógica. As infrações tinham um valor relativo. Os contactos eram avaliados de forma diferente consoante o contexto. Os protestos assumiam gravidades distintas dependendo da cor da camisola. E os cartões (os mostrados e os que ficaram por mostrar) pareciam existir numa espécie de universo paralelo onde determinadas ações eram consideradas merecedoras de sanção e outras, extraordinariamente semelhantes, eram apenas manifestações espontâneas da competitividade própria de um clássico.
A sensação que ficou foi que a mesma torradeira aparecia em várias montras ao longo do jogo, mas o preço mudava constantemente.
O caso dos cartões é paradigmático. O FC Porto conseguiu atravessar boa parte do encontro beneficiando de uma tolerância disciplinar que não deixou de causar perplexidade. Faltas táticas, interrupções de transições, contactos sucessivos em zonas sensíveis do terreno, protestos recorrentes e um conjunto de comportamentos que, isoladamente, poderiam ser considerados menores, mas que, acumulados, deveriam ter conduzido a uma atuação disciplinar mais consistente. Não aconteceu. E quando não acontece, não é apenas um jogador que beneficia. É toda uma estratégia competitiva alicerçada na garra, no querer, na atitude, na raça e na fisicalidade (como agora tanto se gosta de dizer), que ultrapassa os limites... menos para quem veste de azul e branco, até porque eles são assim, sempre foram e isso é que é ser Porto, carago! E é, porquê? Porque, os mesmos de sempre, num remake dos anos noventa, vão deixando como se nada fosse...
Ainda a propósito deste jogo (e deixo, propositadamente, ao juízo de cada um dos leitores, a entrada do Gabri Veiga sobre o Bah, atendendo às diferentes opiniões a esse respeito, quase tantas quanto os critérios de juízo - ou falta deles - dos árbitros portugueses), o lance envolvendo o Prestianni é paradigmático do que tenho vindo a dizer. Curiosamente, as imagens (e ainda falam da BTV... aquela imagem pífia de uma única repetição que parece tirada de um poste de iluminação diz tudo sobre a ligeireza com que se continua a tratar o futebol português, que mais parece produto de contrafação pronto a ser vendido numa qualquer feira de "Carcavelos") permitiram um fenómeno raro no futebol português: milhares de pessoas observaram exatamente o mesmo lance e conseguiram chegar a conclusões radicalmente opostas. Uns viram uma agressão evidente. Outros viram um contacto normal de jogo. A equipa de arbitragem optou por uma terceira via e decidiu que, afinal, não havia ali nada particularmente relevante. É uma abordagem interessante. Sobretudo porque simplifica bastante o trabalho. Quando há dúvidas, não há problema. Se não se vê nada, não há nada para decidir.
A acabar o jogo, surgiu o lance envolvendo o Samu e o Bah. Também aqui a capacidade de observação seletiva pareceu desempenhar um papel importante. O contacto nas costas do lateral benfiquista gerou indignação de um lado e indiferença do outro. Mais uma vez, a torradeira estava exposta. Mais uma vez, o preço variou.
Mas o momento artístico da noite talvez tenha pertencido ao André Silva. O contacto com o Lenglet originou uma reação que dificilmente passaria despercebida aos responsáveis pela atribuição dos Óscares. Houve drama. Houve intensidade. Houve sofrimento. Houve expressão corporal. Houve tudo aquilo que um grande ator procura transmitir ao público. Faltou apenas a banda sonora. Perante a cena, foi impossível não recordar Jorge Jesus e a sua célebre tirada: "Aiii, aiii, aiii... mas levaste com um pau, ou quê?". Anos depois, a frase continua a manter uma impressionante utilidade prática na análise de certos episódios do nosso futebol.
Curiosamente, terminado o encontro, o espetáculo prosseguiu na conferência de imprensa. O treinador portista fez questão de sublinhar que, desta vez, não tinham existido "coisas estranhas". A observação merece registo. Desde logo porque a definição de "coisas estranhas" parece variar muito no futebol português. Quando as decisões favorecem um determinado lado, estamos perante o normal funcionamento das leis do jogo. Quando não favorecem, surgem imediatamente fenómenos misteriosos, conspirações invisíveis, forças ocultas e toda uma fauna paranormal que faria inveja aos argumentistas da Netflix (onde é que eu já ouvi isto?!).
Naturalmente, se uma equipa atravessa um jogo beneficiando de uma interpretação particularmente generosa de vários momentos disciplinares, é compreensível que no final tudo pareça perfeitamente normal. Estranho seria pensar o contrário. E, no caso do FC Porto e do Estádio do Dragão, é, mesmo, "a walk in the park", ou "another day in the office".
A cereja no topo do bolo chegou através das declarações do presidente portista, que conseguiu, simultaneamente, identificar uma alegada "santa aliança" entre Benfica e Sporting e classificar a arbitragem como excelente. É uma combinação notável. Quase uma obra de ficção política aplicada ao futebol. Durante décadas, Benfica e Sporting disputaram campeonatos, taças, jogadores, treinadores, influência institucional, protagonismo mediático e praticamente tudo o que havia para disputar. Mas eis que, subitamente, passam a integrar uma espécie de sociedade estratégica secreta destinada a conspirar contra o FC Porto.
É uma teoria criativa. Tem poucos factos a sustentá-la, mas possui uma enorme vantagem: permite explicar quase tudo sem necessidade de recorrer à realidade.
Já a classificação da arbitragem como excelente merece igualmente apreciação. É verdade que a excelência é um conceito subjetivo. Há quem a associe à competência. Há quem a associe à coerência. Há quem a associe à aplicação uniforme dos critérios. E há quem, aparentemente, a associe ao resultado final das decisões. São escolas diferentes. A dele, bem sabem qual é...mais de 40 anos disto!!
No meio de toda esta discussão surgiu também Rui Costa. E, como habitualmente acontece, não faltaram benfiquistas prontos a acusá-lo de ter sido demasiado brando, demasiado diplomático ou demasiado institucional. Alguns gostariam de o ver mais agressivo. Outros mais combativo. Outros mais ruidoso. E, outros ainda, isso tudo junto.
Mas talvez valha a pena recordar uma frase frequentemente atribuída a Steve Jobs: "Se queres fazer toda a gente feliz, não vendas computadores. Vende gelados."
É uma frase particularmente útil para quem ocupa cargos de liderança. Porque liderar não é agradar a todos. Liderar é tomar decisões, assumir posições e aceitar que haverá sempre quem discorde. Rui Costa pode ser criticado por muitas coisas. Faz parte do escrutínio inerente ao cargo. Mas dificilmente pode ser acusado de procurar agradar a toda a gente. Se esse fosse o seu objetivo, teria escolhido uma profissão muito mais simples. Teria aberto uma geladaria.
No final de tudo, fica a sensação de que o FC Porto - Benfica produziu mais uma daquelas noites em que o futebol português consegue ser simultaneamente apaixonante e caricatural. Houve intensidade competitiva. Houve qualidade. Houve emoção. E houve também uma arbitragem que deixou demasiadas perguntas sem resposta.
Talvez Miguel Nogueira soubesse exatamente quanto valia cada uma das suas decisões. Talvez soubesse perfeitamente quando mostrar um cartão, quando intervir e quando agir disciplinarmente. Talvez.
O problema é que, olhando para o jogo, ficou a sensação de que a assistência começou a gritar, o ambiente começou a apertar e o concorrente acabou por deixar de confiar na resposta certa.
E quando isso acontece, a torradeira continua a valer 50 euros.
Só o preço é que muda.
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