Nuno Campilho
Biografiado Autor

01 Abr 2026 | 03:00

Icon Comentário 0
Nuno Campilho

Empate diante do México revelou, uma vez mais, várias fragilidades e inconsistências na seleção nacional e o que não falta são culpados


Há seleções que pecam por falta de qualidade. Portugal, hoje, peca exatamente pelo contrário: tem talento em abundância, mas continua amarrado a um conjunto de decisões técnicas difíceis de compreender e, mais grave, a uma ideia de jogo pouco ambiciosa, previsível e, em certos momentos, incoerente.


O principal responsável tem nome: Roberto Martínez.


Não se trata apenas de discutir escolhas pontuais, mas sim de questionar um modelo de liderança e de pensamento. Um selecionador que, perante uma geração riquíssima, opta por soluções conservadoras, por vezes contraditórias, e raramente disruptivas.

Comecemos pelo mais evidente: a gestão do estatuto. Cristiano Ronaldo continua a ser tratado como intocável. Ninguém discute o legado – seria absurdo fazê-lo – mas a seleção nacional não pode viver refém da história. Vive-se do presente. E no presente, a titularidade deve ser uma questão de rendimento, não de currículo.

Aliás, essa falta de coragem estende-se a outras decisões. A insistência em Rúben Neves como peça quase obrigatória no meio-campo é difícil de justificar num contexto em que Portugal dispõe de soluções muito mais dinâmicas, intensas e ajustadas ao futebol moderno. A dúvida nunca deveria ser como encaixá-lo, deveria ser se faz sentido utilizá-lo.

Mais grave ainda é a instabilidade conceptual. Ver João Neves, em tempos, adaptado a lateral-direito é sintoma de um problema maior: a incapacidade de definir uma estrutura coerente e tirar o máximo partido dos jogadores nas suas posições naturais.

No centro da defesa, a escolha de Gonçalo Inácio como parceiro de Rúben Dias levanta sérias dúvidas. Rúben Dias é fortíssimo no posicionamento, na marcação e no jogo aéreo, ou seja, é um central de elite. Mas precisa ao seu lado de um perfil complementar: velocidade, capacidade de antecipação e agressividade defensiva para proteger a profundidade.

Gonçalo Inácio oferece qualidade na saída de bola pela esquerda, é verdade. Mas é lento, pouco eficaz na marcação e vulnerável perante avançados rápidos. Num futebol de alta intensidade, como aquele que se vai jogar no Mundial, é “peanurs”, como dizia o JJ.

A solução parece óbvia, mas é ignorada: Tomás Araújo, que nem sequer deve entrar nas contas (sem prejuízo de ter sido agora convocado) – pois levar dois centrais do Benfica deve ser heresia – seria o parceiro ideal. É rápido, competente na antecipação e sólido na construção (tem pezinhos de 10, como eu costumo dizer). Mesmo António Silva, apesar de algumas oscilações, ofereceria mais garantias nesse papel. Insistir num central apenas por ser canhoto, quando Rúben Dias pode jogar à esquerda sem qualquer problema, é um argumento frágil a roçar o dogmatismo.

No ataque, a incoerência mantém-se. A não inclusão de perfis complementares como André Silva, Paulinho ou Beto (em destaque na Premier League, tendo marcado dois golos ao Chelsea no último jogo ao serviço do Everton), limita a diversidade ofensiva. Todos oferecem características diferentes: jogo de apoio (ou associativo, como eu também gosto de dizer), presença física e ataque à profundidade. Elementos fundamentais para desbloquear jogos fechados.

E, no entanto, o melhor ponta-de-lança português da atualidade continua sem o protagonismo que merece: Gonçalo Ramos. Mesmo com utilização irregular no PSG, é o avançado mais completo, pois pressiona, ataca espaços e finaliza. Deve ser titular. Sem discussão.

No meio-campo, o cenário é ainda mais revelador. Portugal tem, provavelmente, um dos trios mais equilibrados da Europa: João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes. Intensidade, critério, criatividade. Está tudo ali.

A questão não deveria ser como encaixar Bernardo Silva ou Rúben Neves. A questão deveria ser simples: reforçar o equilíbrio (com João Palhinha) ou aumentar a criatividade (com Pedro Gonçalves, Francisco Trincão, Rodrigo Mora ou João Félix). Tudo o resto é ruído tático.

Mas o problema maior está no modelo. Portugal joga quase sempre da mesma forma: posse estéril, circulação lenta, momentos individuais nas alas (seja com Pedro Neto, Rafael Leão ou Francisco Conceição) e um jogo interior demasiado rendilhado, muitas vezes canalizado para servir Ronaldo.

É previsível. E no futebol de elite, previsibilidade é sinónimo de vulnerabilidade.

Contra seleções como França, Espanha, Alemanha ou Inglaterra, isto não chega. Essas equipas defendem melhor, pressionam melhor e exploram qualquer fragilidade estrutural. Portugal, com este modelo, terá sempre dificuldades em surpreender.

O mais paradoxal é que esta geração oferece exatamente o contrário: versatilidade, criatividade, capacidade de aceleração, talento para o imprevisível. Mas, em vez de potenciar essas qualidades, o sistema parece domesticá-las.

Portugal não precisa de mais talento. Precisa de mais coragem.

E, sobretudo, de um selecionador que esteja à altura dele.

+ opinião
Nuno Campilho
Bernardo Alegra

30 Mar 2026 | 03:00

Icon Comentário0

Podíamos ser tudo o que não somos

Aceitar dura realidade que temporada já chegou ao fim, reforçando ideia e necessidade de haver mudanças estruturais em várias frentes

+ opinião
Nuno Campilho
Nuno Campilho

Não falamos do Bruno, oh, não, não, não… a menos que seja o Fernandes...

Empate diante do México revelou, uma vez mais, várias fragilidades e inconsistências na seleção nacional e o que não falta são culpados

01 Abr 2026 | 03:00

Icon Comentário0
Bernardo Alegra
Bernardo Alegra

Podíamos ser tudo o que não somos

Aceitar dura realidade que temporada já chegou ao fim, reforçando ideia e necessidade de haver mudanças estruturais em várias frentes

30 Mar 2026 | 03:00

Icon Comentário0
Tozé Santos e Sá
Tozé Santos e Sá

APONTAMENTO – Vermelho e Branco: O ESTADO A QUE CHEGÁMOS

Uma gestão ruinosa e mal pensada que se alastra por todos setores, indo além das quatro linhas, o que também inclui forma de trabalho na BTV e Benfica FM

27 Mar 2026 | 03:00

Icon Comentário0

envelope SUBSCREVER NEWSLETTER