Futebol português entre duas classificações
Quando a 'virtualidade' entrega o título real da controvérsia… ou porque é que o Mourinho não é estúpido, mas há quem o seja
04 Mar 2026 | 03:00
Quando a 'virtualidade' entrega o título real da controvérsia… ou porque é que o Mourinho não é estúpido, mas há quem o seja
No último fim-de-semana, o futebol nacional voltou a ser notícia… por razões que nada têm a ver com futebol jogado em campo e tudo a ver com decisões fora dele.
Parece que andamos a fazer como a UEFA e a querer tomar decisões que deviam surgir só e apenas resultantes daquilo que se joga dentro das quatro linhas, fora delas, nos meandros dos conspurcados corredores do ‘poder’ que é forte com os fracos e fraco com os fortes
Vamos a factos!
O Benfica apresentou aquilo que chamou de “classificação virtual” – um quadro alternativo ao oficial do campeonato que justifica, com números e factos, o que o treinador José Mourinho vinha alegando: que erros graves de arbitragem beneficiaram adversários e prejudicaram a equipa que lidera, alterando o rumo natural da competição.
Segundo a própria explicação do clube, baseada na leitura de lances controversos e na reconstrução “lógica” dos resultados caso certas decisões tivessem sido diferentes, a classificação seria: o FC Porto com apenas mais dois pontos do que o Benfica, ao invés dos atuais sete; o Benfica com seis pontos a mais do que aqueles que tem na “realidade”; e o Sporting CP com seis pontos a menos.
Ou seja: não estamos a falar de ciência infusa, mas de um exercício de contabilidade retrospetiva aplicado pelo Benfica com base numa narrativa específica sobre a arbitragem, mas que, infelizmente, muito para além das evidências, só tem impacto “virtual”.
A resposta mais mediática veio do treinador do FC Porto, Francesco Farioli, justamente antes de um clássico com o Sporting. Quando questionado sobre a posição dos dragões na tal Liga “virtual”, reagiu, dizendo: “O FC Porto está em que lugar? Então estamos na mesma em primeiro. (…) Há um troféu para o campeão virtual? Não? Então é melhor gastarmos as nossas energias no outro.” Fala de “cadeirinha”, alguém que só encontra par no José Leirós, na visualização do pontapé que o jogador do Arouca deu no pé do seu jogador, Fofana, quando foi, precisa e nitidamente o contrário. Não é por acaso que lhe chamam penálti “fantasma”… e que nem sequer é como as bruxas… no hay!
Uma resposta que, mesmo com tom descontraído, sublinha um contraste claro: enquanto o Benfica recorre ao que chama de realidade alternativa para motivar o seu plantel (só me interpreta mal quem, também, interpretou mal o Mourinho quando este disse que o Benfica tinha ganho em Braga), o Porto enfatiza apenas a competição “real” – aquela em que existe um troféu, regras oficiais e, espera-se, um árbitro… eu não os vejo, mas que los hay, los hay (devem andar a apitar em ligas secundárias, pois isto está bom é para os “moedinhas” e “verdíssimos” desta vida que, creiam, bem que podia, por vezes, ser mais “virtual” que “real”)… e é o que temos.
De um ponto de vista estritamente pragmático (ou seja, fora dos micro-universos virtuais), a classificação real da Liga Portugal Betclic continua a ser baseada em pontos conquistados no campo. Não se pode substituir tal tabela por cálculos retroativos próprios de um clube sem violar os princípios de igualdade competitiva estabelecidos pelo próprio regulamento da liga (um ponto que passa despercebido quando se discute “virtualmente” quem realmente deveria liderar, que por acaso até é o mesmo e que nos remeteria para o estado de putrefação em que o futebol português se deixou tornar, por responsabilidade exclusiva dos dirigentes que o tutelam, até porque, desta vez, nem sequer é sério dividir culpas com os dirigentes desportivos… outros tempos…). O problema é que ‘os princípios de igualdade competitiva’ começam por ser deturpados in house e o próprio regulamento da Liga é semanalmente infringido, arrastando consigo, inclusive, as próprias regras definidas pelo International Board (vide o caso do penálti assinalado por falta “cometida” pelo António Silva no jogo frente ao Casa Pia). E. ao contrário do que me ensinaram os meus queridos paizinhos, neste caso não pagam todos quando alguém se porta mal…
Tenho de admitir, porque não basta ser sério, também é preciso parecê-lo, que o uso de expressões como “classificação virtual” ou “duas ligas em paralelo” levanta uma questão maior: será que a atmosfera mediática em redor da arbitragem está a ultrapassar a própria realidade dos factos desportivos? Este tipo de discurso, quando alimentado repetidamente, pode transformar uma pirâmide de episódios isolados numa narrativa de injustiça sistémica - uma narrativa que, muitas vezes, é mais emotiva do que jurídica ou técnica. Mas isto não é nem um problema meu, nem do Mourinho, nem do Benfica. É um problema do futebol português! Mas como ninguém o quer resolver (eu sei, dá trabalho), vamos andar de época em época a comer arroz.
Como benfiquista, é compreensível querer realçar injustiças percebidas – aliás, esse sentimento é tão velho quanto o próprio futebol e não vai morrer novo (e. digo mais, nem o sentimento morre, nem nós viveremos o tempo suficiente para vislumbrar alguma pacificação). Mas há uma diferença crucial entre motivar um plantel com uma narrativa interna e tentar instituir essa narrativa como substituto da lei do jogo e da tabela oficial. E contra mim falo, mas não posso estar a atirar uma pedra e a esconder a mão. Se não nos assumimos responsáveis e críticos, arriscamos a definhar e a caminhar para a beira de um precipício, cujo caminho, nos últimos bons anos, tem sido vastas vezes percorrido pelo nosso rival mor, ao ponto de saber as direções de cor. Nós ainda precisamos de GPS para lá chegar. Que assim seja e continue a ser.
Todos nós sabemos que o futebol profissional tem mecanismos oficiais para lidar com erros evidentes – incluindo o VAR e as comissões disciplinares – (a UEFA relembrou-nos isso e nem foi pelas melhores razões), mas não pode ser reformado por classificações paralelas criadas pelos clubes. Aliás, historicamente, sempre que se tentou reinterpretar resultados acabou por se cair em debates intermináveis que nada resolvem e tudo contaminam. Eu estou fora, mas, da mesma forma que admiti que o mediatismo está a prejudicar a arbitragem (ou o que quer que aquilo seja, mesmo quando não se parece com tal), tenho de voltar a praticar a seriedade e (re)afirmar que o José Mourinho e o Benfica estão carregados de razão.
A verdade é simples e, ao mesmo tempo, inquietante: o futebol continua a ser decidido, oficialmente, por 90 minutos (mais compensações), não por classificações paralelas; a arbitragem terá sempre impacto, mas cabe aos organismos competentes lidar com isso, não aos clubes substituírem-se na prossecução de um interesse coletivo (a questão é que nem sempre o é); a “classificação virtual” faz sorrir os rivais, mas também revela uma inquietação mais que legítima de quem sente que foi prejudicado e teima em ser, semana após semana, direta (nos seus jogos) ou indiretamente (nos jogos dos seus adversários mais diretos).
No fundo, este episódio não diz apenas respeito a quem está “virtualmente” em primeiro ou segundo lugar. Diz respeito à necessidade de confiarmos mais nos processos oficiais – e menos na nossa própria contabilidade emocional. E, creiam, eu bem queria… só que não… acordei, caí da cama e alguém gritou: “penálti para o Porto”!
Já perceberam, agora, que aquilo que o Mourinho quer, é, mesmo, competir num campeonato real, ou será preciso fazer um desenho? É que, para além do formato desta crónica não o permitir, de a minha testa ser grande, mas não ter boca, eu também não sei desenhar.
Futebol português entre duas classificações
Quando a 'virtualidade' entrega o título real da controvérsia… ou porque é que o Mourinho não é estúpido, mas há quem o seja
Obrigação de acreditar
Após triunfo suado, frente ao Gil Vicente, e com Clássico à porta, é tempo de lutar pelo objetivo máximo até ao fim, custe o que custar
APONTAMENTO – Vermelho e Branco: RUI COSTA E MOURINHO
No rescaldo da derrota na Liga dos Campeões, liderança do Presidente e gestão do treinador das águias são visadas pelas constantes más decisões
Futebol português entre duas classificações
Quando a 'virtualidade' entrega o título real da controvérsia… ou porque é que o Mourinho não é estúpido, mas há quem o seja
04 Mar 2026 | 03:00
Obrigação de acreditar
Após triunfo suado, frente ao Gil Vicente, e com Clássico à porta, é tempo de lutar pelo objetivo máximo até ao fim, custe o que custar
03 Mar 2026 | 03:00
APONTAMENTO – Vermelho e Branco: RUI COSTA E MOURINHO
No rescaldo da derrota na Liga dos Campeões, liderança do Presidente e gestão do treinador das águias são visadas pelas constantes más decisões
27 Fev 2026 | 03:00
SUBSCREVER NEWSLETTER