Bernardo Alegra
Biografiado Autor

06 Mar 2023 | 13:27

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Bernardo Alegra

A polémica à volta do futebol nas arbitragens não é coisa nova. Existe desde que me lembro e com certeza antes disso


Nos anos 90, com a abertura da televisão aos canais privados, em 1992 e 1993, e a passagem dos jornais desportivos para diários em 1995, esta discussão passou para primeiro plano mediático, trazendo para as televisões e jornais as conversas de café, aumentando consideravelmente o ruído à volta deste tema.


Seguiu-se o aparecimento dos canais de televisão noticiosos por cabo, no início dos anos 2000, que rapidamente perceberam onde estava o “ouro”: nos programas de “futebol” com diversos painéis de “especialistas” que falam muito pouco de futebol e demasiado de casos e casinhos de arbitragem, esmiuçando até à náusea todos os lances, comentados quase sempre sem ponta de isenção ou honestidade intelectual. Estas discussões são vistas e repetidas nas escolas, nos cafés, nos escritórios e em casa, sem que aparentemente se sinta cansaço sobre o modelo.


E, assim, chegamos aos dias de hoje, 2023, em que não passa dia sem se alimentar e se alimentarem destas polémicas, devidamente amplificadas pelas redes sociais.

Se consigo entender o interesse dos media no tema, que vivem de audiências, agora transversal a vários canais, já não consigo o interesse da Liga Portugal e FPF em manter este status quo? Por que prisma o futebol português beneficia desta suspeição permanente? Eu não encontro um único!

Numa coisa sejamos justos, o futebol português não é assim tão original. O futebol é historicamente um jogo pré-histórico e cristalizado que não inova a não ser quando é já evidentemente insuportável não o fazer.

Reparem, o apoio da tecnologia vídeo à arbitragem foi introduzido no futebol americano (não confundir com o Soccer) em 1986, ainda o Benfica só tinha 5 finais de taças de campeões europeus. O famoso VAR demorou “apenas” 31 anos a aparecer no futebol europeu, mais de uma década depois de outros desportos de massa como o basquetebol, o rugby ou o ténis.

Entretanto, anda o futebol a discutir se permite ou não a divulgação das conversas dos árbitros com o VAR ou promove a explicação das decisões destes ao público, coisa que já é feita em qualquer um destes desportos desde pelo menos a década passada.

É inegável que a introdução destas metodologias, apoiadas por tecnologia cada vez mais avançada (como a da linha de fora de jogo ou de golo), promovem a transparência na tomada de decisão e com isso:

  • O sentido de justiça e equidade;
  • Diminui a controvérsia e protege os seus decisores;
  • Cria confiança;
  • Melhora a qualidade.

Se é assim, do que têm medo a Liga Portugal e a FPF? O que têm a perder? Porquê ser cúmplice deste clima permanente de desconfiança e suspeição, alimentado jornada após jornada por decisões com critérios desiguais, muitas vezes tendo os mesmos intervenientes? Porque não são publicas as avaliações ao trabalho dos árbitros? E porque não são estes penalizados quando erram grosseiramente nas suas decisões? E porque continuam os clubes a discutir o que está mal em vez de se concentrarem naquilo que poderia estar bem?

A Liga portuguesa é periférica e, mantendo o modelo, continuará a ser cada vez mais, limitada ao interesse dos portugueses que ainda têm pachorra para conviver com isto. Pelo caminho destrói-se o já pouco valor económico que os clubes portugueses têm aos olhos dos seus patrocinadores, e o da tão propalada centralização dos direitos televisivos a que ninguém dará o dinheiro que a Liga e os seus representantes julgam que ela tem (sem suporte que se conheça).

E o que tem o Benfica a ver com isto? Tudo! O Benfica é ainda mais forte se a competição nacional também o for.

Infelizmente o Benfica tem observado isto de perto, entrando como ator secundário num filme que é realizado e contracenado há 40 anos por outros.

Quando se exigia uma atitude de liderança na luta pela transparência e justiça do futebol português, o Benfica não tem uma posição clara sobre o tema e, nas poucas vezes que teve oportunidade para se destacar, (como na recente discussão sobre a comunicação das conversas do árbitro com o VAR) optou por uma posição dúbia que acabou por validar a manutenção do que hoje temos.

Esta é uma oportunidade única do Benfica deixar bem claro que é na justiça e verdade que se revê, hoje e sempre! Para quando esse passo?

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