Nuno Campilho
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25 Mar 2026 | 16:19

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Nuno Campilho

Questão pode ser positiva, mas, sem transparência e confiança, arrisca prejudicar quem mais gera valor, nomeadamente o Benfica


A centralização dos direitos televisivos no futebol português tem sido apresentada como uma inevitabilidade estrutural, quase como um imperativo de modernização, além da constante invocação do cumprimento da lei – DL22-B/2021, de 22 de março, que visa garantir a implementação do modelo de comercialização centralizada até 2028.


O argumento é conhecido: maior equilíbrio competitivo, distribuição mais equitativa de receitas, valorização coletiva do produto “Liga” e aumento da capacidade negocial face aos operadores internacionais. No plano teórico, a literatura económica do desporto tende a corroborar estes objetivos, pois, ligas mais equilibradas são, em regra, mais imprevisíveis e, portanto, mais atrativas.


Contudo, como em muitos processos de engenharia institucional, o problema raramente reside na ideia, mas sim na execução. Modelos como o da Premier League, o da La Liga ou o da Bundesliga (pós-2015) são frequentemente citados como exemplos de sucesso. Mas uma análise mais fina revela nuances importantes:


                       • Inglaterra: a centralização sempre existiu num contexto de forte internacionalização da marca, com regras claras de distribuição (50% igualitária, 25% por mérito desportivo, 25% por audiência).

                      • Espanha: a centralização foi imposta após anos de negociação falhada, mas incluiu mecanismos de compensação aos clubes historicamente mais geradores de receita, como o Real Madrid e o Barcelona.

                     • Alemanha: modelo altamente regulado, com forte componente solidária, mas sustentado por uma cultura de governação estável e transparente.


Em todos estes casos, há dois denominadores comuns: credibilidade institucional e previsibilidade regulatória. Portugal, pelo contrário, tenta importar o modelo sem garantir plenamente estas condições. A centralização em Portugal surge num contexto onde os três grandes – e em particular o Benfica – possuem contratos individuais significativamente mais vantajosos do que a média da Primeira Liga. Isto cria um problema clássico de economia política: quem mais gera valor tem menos incentivo para redistribuí-lo sem garantias robustas de retorno indireto.

O Benfica, enquanto clube com maior base associativa, maior audiência e maior capacidade de monetização própria, posiciona-se, naturalmente, como o principal “contribuinte líquido” de qualquer modelo centralizado. A sua resistência não é, portanto, irracional, é, do ponto de vista económico, expectável. Mais ainda: a crítica ao processo tem incidido em aspetos concretos e tecnicamente relevantes:

                     • Falta de transparência nos critérios de distribuição futura;

                     • Ausência de garantias sobre a valorização internacional do produto;

                     • Governação central ainda pouco independente dos interesses instalados.

A decisão de abandonar as negociações por parte do Benfica, deve ser lida à luz destes fatores. Não se trata apenas de uma posição política, é, mesmo, uma avaliação de risco. Há, porém, uma dimensão mais sensível e inevitavelmente mais controversa, que tem acompanhado esta posição do Benfica: a perceção crescente de que o seu afastamento do processo poderá estar a ter reflexos no plano competitivo, nomeadamente nas arbitragens.

Esta ideia, embora difícil de demonstrar empiricamente de forma linear, não pode ser descartada sem análise. Em sistemas onde a governação é difusa e os equilíbrios de poder são informais, os incentivos implícitos tendem a manifestar-se de formas subtis.

A literatura sobre “institutional bias” no desporto (práticas, guiões ou procedimentos que são levados a cabo para dar vantagem sistemática a certos grupos, aos seus interesses e às suas agendas, sobre outros) sugere que decisões arbitrais podem, ainda que inconscientemente, refletir contextos de pressão sistémica, desde o ambiente mediático até às relações de poder dentro das estruturas organizativas.

Quando um clube assume uma posição frontalmente crítica face a um processo estruturante como a centralização, coloca-se inevitavelmente fora do consenso dominante. Isso pode gerar um maior escrutínio sobre as suas ações, uma menor margem de tolerância em decisões marginais e um ambiente geral menos favorável em órgãos dependentes do ecossistema federativo e da Liga Portugal.

O facto de esta perceção se estender a diferentes escalões e modalidades, reforça a ideia de que não se trata apenas de episódios isolados, mas de um padrão sentido, ainda que não formalizado. 

O Benfica encontra-se, assim, numa posição paradoxal: ao defender um princípio economicamente racional de proteger o valor que gera, arrisca-se a sofrer custos indiretos num sistema onde a neutralidade institucional nem sempre é plenamente assegurada. Isto levanta uma questão central: é possível implementar uma centralização justa sem garantir previamente independência regulatória e confiança sistémica?

A resposta, olhando para os exemplos internacionais, parece ser negativa.

Em suma, a centralização dos direitos televisivos pode ser um passo importante para o futebol português, mas não pode ser feita à custa de quem mais contribui para o valor global do produto, nem num ambiente onde subsistem dúvidas sobre a equidade competitiva. A posição do Benfica, longe de ser um capricho ou uma resistência conservadora, levanta questões estruturais que o processo ainda não conseguiu responder de forma convincente.

Ignorá-las não tornará a centralização mais eficaz, antes pelo contrário, poderá é torná-la mais frágil. E, num contexto onde a perceção de justiça é tão importante quanto a justiça em si, isso pode sair caro a todo o sistema.

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Nuno Campilho
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