Quando falta o quase
Equipa encarnada domina, cria, mas falha nos detalhes decisivos. Entre eficácia ofensiva e equilíbrio tático, por pouco voltou a custar pontos
14 Mai 2026 | 03:00
Equipa encarnada domina, cria, mas falha nos detalhes decisivos. Entre eficácia ofensiva e equilíbrio tático, por pouco voltou a custar pontos
Há equipas que jogam pouco e ganham. Há equipas que jogam muito e perdem. E depois há este Benfica: uma equipa que faz quase tudo bem, quase tudo suficiente, quase tudo merecedor… mas à qual, nos momentos decisivos, falta sempre qualquer coisa. Um detalhe. Um metro. Um toque. Um critério. Um “quase”.
O empate frente ao Braga foi o retrato acabado disso mesmo.
O Benfica fez quase tudo para ganhar. Dominou largos períodos do jogo, criou volume ofensivo, rematou 25 vezes, produziu 3,55 xG e, ainda assim, marcou apenas dois golos, sendo um deles de penálti. Uma brutal ineficácia ofensiva que explica muito do momento da equipa: produz o suficiente para resolver jogos, mas concretiza abaixo daquilo que constrói.
E esse “quase” ofensivo tem uma explicação tática clara.
A utilização de Ivanovic em detrimento de Pavlidis altera profundamente a dinâmica da equipa. Ivanovic é útil quando há espaço para atacar a profundidade, quando existe um terceiro médio capaz de ocupar os vazios criados pelos seus movimentos verticais. Mas, num meio-campo a dois, isso torna-se problemático. Porque Ivanovic não baixa, não associa, não liga setores. Ataca espaço. E atacar espaço sem alguém que o ocupe é abrir buracos na estrutura coletiva.
Pavlidis, pelo contrário, funciona quase como um “falso médio ofensivo”. Desce, combina, aproxima jogo interior e ajuda a equipa a construir. Num meio-campo a dois, é essencial. Porque o Benfica atual não tem, naquela estrutura, um jogador capaz de preencher naturalmente esse vazio. Rafa não o faz. Rafa existe no jogo, aparece em momentos, acelera transições, mas não organiza, não dá continuidade, não estabiliza.
E mérito também para Carlos Vicens. O treinador do Braga é, provavelmente, um dos técnicos mais subvalorizados do futebol português. A sua equipa não foi ao Estádio da Luz jogar “olhos nos olhos”. Foi lá desmontar o Benfica. E conseguiu fazê-lo durante muitos momentos.
O Braga preocupou-se mais em impedir o Benfica de jogar do que propriamente em jogar. Fechou a transição ofensiva encarnada pelo lado direito, precisamente onde o Benfica costuma ser fortíssimo com Tomás Araújo, e colocou Tiknaz praticamente como sombra de Aursnes, impedindo o norueguês de ter liberdade nos movimentos interiores.
O plano teve consequências evidentes ao empurrar o Benfica para a esquerda. E aí surgiu o dilema da “manta curta”. Porque, se por um lado, isso potenciou um Schjelderup absolutamente inspirado, por outro tornou o jogo ofensivo encarnado excessivamente previsível. Em muitos momentos, a construção resumiu-se a entregar a bola ao jovem norueguês e esperar que ele resolvesse.
O problema é que o “quase” também existiu defensivamente.
O Benfica fez quase tudo para não sofrer golos. Mas voltou a faltar equilíbrio estrutural. Sem um terceiro médio, os setores vivem demasiado afastados. A defesa, atendendo às características dos jogadores em campo, podia e devia jogar mais subida, aproximando a equipa e comprimindo espaços. Mas a ausência desse médio adicional e o afastamento do ponta de lança criavam constantemente um vazio algures: ora entre linhas ofensivas, ora entre linhas defensivas.
No primeiro golo sofrido, isso é evidente. Falta cobertura do lado esquerdo e o jogador que aparece a finalizar movimenta-se precisamente naquele espaço entrelinhas que ninguém ocupava. No segundo golo, a situação torna-se ainda mais exposta: Barreiro já tinha saído e o Benfica passou a jogar com apenas um médio de equilíbrio.
E aqui entra uma das decisões mais discutíveis da noite: a saída de Leandro Barreiro.
A entrada de Lukebakio não está em causa. O problema foi quem saiu. Retirar Barreiro desmontou o pouco equilíbrio que ainda existia no meio-campo. Se a intenção era manter agressividade ofensiva, talvez tivesse feito mais sentido sair Prestianni - ou até Rafa. Porque há uma verdade simples e quase cruel (sobretudo para quem teima em menorizá-lo), o Barreiro tem mais chegada à área com critério e golo do que o Prestianni e o Rafa juntos.
Mas como se o “quase” competitivo não bastasse, houve também o “quase” arbitral.
O fora-de-jogo assinalado por 4 centímetros é um daqueles momentos em que o futebol entra no domínio da abstração tecnológica. Não se vê claramente o momento da saída da bola e as linhas voltam a surgir colocadas de forma… criativa: braço do jogador do Benfica de um lado, “meio pé” do defesa do Braga do outro.
Depois, a eterna questão dos ressaltos na mão. Já ficou claro que só são penálti quando envolvem António Silva. O ressalto do pé para a mão de um defesa bracarense na primeira parte seguiu exatamente a mesma lógica do penálti assinalado ao central benfiquista frente ao Casa Pia. A diferença? Critério.
Ou falta dele.
Também o golo anulado a Pavlidis levanta dúvidas sérias. A alegada saída total da bola pela linha de fundo não é sustentada por qualquer imagem conclusiva. E quando não há evidência clara, a decisão deveria favorecer quem marcou. Mas no futebol português moderno, o benefício da dúvida parece ter morada fixa (e até que fica perto, é só atravessar a 2.ª Circular).
Acrescente-se ainda o reduzido tempo de compensação - quer na primeira, quer na segunda parte - a permissividade disciplinar em várias entradas sobre jogadores do Benfica e dois cantos claríssimos por assinalar, e constrói-se mais um daqueles jogos em que o Benfica não perdeu apenas pontos, perdeu também margem de tolerância emocional, como, aliás, se viu no final do jogo.
Tudo isto acontece numa altura particularmente delicada para Rui Costa e para o próprio comando técnico.
O impasse sobre a continuidade do treinador tornou-se um problema em si mesmo. Porque a indefinição corrói autoridade, gera ruído externo e transmite a sensação de um projeto suspenso entre convicção e dúvida. Se Rui Costa acredita no treinador, deve assumi-lo publicamente e dar estabilidade. Se não acredita, prolongar a hesitação apenas adia um problema inevitável.
Do lado do treinador, também há sinais contraditórios. Há qualidade de trabalho, há evolução em muitos momentos da equipa, há capacidade estratégica em determinados jogos. Mas há igualmente insistências difíceis de compreender, leituras tardias e alguma incapacidade para encontrar uma estrutura verdadeiramente equilibrada nos jogos grandes e emocionalmente mais intensos e decisivos.
E talvez seja precisamente esse o drama deste Benfica.
Não lhe falta qualidade. Não lhe falta produção ofensiva. Não lhe falta ambição. Nem sequer lhe falta competitividade.
Falta-lhe o quase.
O quase remate que entra.
O quase equilíbrio que segura o resultado.
O quase critério que decide de forma justa.
O quase detalhe tático que fecha o jogo.
O quase momento de lucidez que transforma superioridade em vitória.
E no futebol - sobretudo num campeonato onde tudo parece decidido ao milímetro, à interpretação e ao enquadramento conveniente - viver no “quase” é a forma mais cruel de falhar.
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