Convocatória da Seleção Nacional: entre a ciência oculta e a gestão de estatutos
Martínez não chama jogadores, conta com ideias. Portugal tem talento, mas plantel continua confuso, incoerente e dependente de nomes
20 Mai 2026 | 16:16
Martínez não chama jogadores, conta com ideias. Portugal tem talento, mas plantel continua confuso, incoerente e dependente de nomes
Há selecionadores que convocam jogadores. E depois há Roberto Martínez, que parece montar um ecossistema metafísico onde a lógica competitiva, a coerência estrutural e o equilíbrio da convocatória vivem algures entre o metaverso e a ciência oculta.
A mais recente convocatória da Seleção volta a provar isso mesmo: Portugal não convoca 26 jogadores. Convoca conceitos abstratos, estatutos históricos, fetiches posicionais e relações diplomáticas com nomes grandes.
Comecemos pelo princípio. Ou pelo guarda-redes extra.
Levar quatro guarda-redes é perfeitamente legítimo. Aliás, se quiser levar dez, esteja à vontade. O problema não é levá-los. O problema é ocuparem vagas de convocatória quando o regulamento só permite 26 jogadores inscritos. Se Ricardo Velho vai apenas fazer número, treinar remates e ajudar o ambiente do grupo, então enquadre-se como elemento do staff técnico, logístico, espiritual ou motivacional. Porque, em termos práticos, é isso que será.
E aqui entra o primeiro problema sério de Martínez: a incapacidade de perceber que uma convocatória curta exige escolhas funcionais e complementares, não acumulação de redundâncias (a menos que falte um parceiro para jogar à sueca, ou se queira contribuir para acrescentar uma página na esgotadíssima caderneta de cromos do Mundial).
Depois vem o caso Renato Veiga. Aparentemente, o critério para a vaga dos defesas centrais é serem altos, canhotos e existirem. Extraordinário. Nesse caso, talvez muitos portugueses estejam injustamente fora da lista. Eu próprio poderia entrar nas contas: sou canhoto em algumas tarefas e até percebo minimamente de futebol (embora não seja lá muito alto). A diferença apenas está no detalhe irrelevante de nunca ter jogado profissionalmente. Mas isso parece cada vez menos decisivo.
A sensação é que Martínez se apaixonou pela ideia abstrata do “central canhoto”, como se estivesse a montar uma coleção cromática e não uma seleção nacional.
E depois chegamos ao território da incoerência absoluta.
Não convocar simultaneamente Tomás Araújo e António Silva eventualmente porque jogam no mesmo clube e fazem a mesma posição, deve ser uma regra fascinante. Pena é aplicar-se apenas ao Benfica. Porque no Paris Saint-Germain coexistem tranquilamente Vitinha e João Neves; no Al Nassr convivem Cristiano Ronaldo e João Félix; e no Manchester City aparecem Bernardo Silva e Matheus Nunes.
Portanto, a regra não é técnica. É geográfica. Ou estética. Ou simplesmente arbitrária.
Aliás, o próprio caso de Matheus Nunes ajuda a desmontar a confusão conceptual desta convocatória. Porque Martínez insiste em apresentá-lo como lateral-direito apenas porque tem desempenhado essa função ocasionalmente no City. Ora, Matheus Nunes é médio. Adaptado a lateral. Tal como João Neves poderia perfeitamente ser adaptado a lateral em contexto de necessidade (absurda, convenhamos).
Mas isso obrigaria o selecionador a pensar estruturalmente a convocatória, e isso parece excessivamente exigente.
Assim, acaba-se com um desequilíbrio absurdo: nove defesas e seis médios. Quando seria muito mais lógico ter oito defesas e sete médios, sobretudo numa seleção cujo principal capital competitivo está precisamente na qualidade do meio-campo.
Porque Portugal tem talvez o melhor trio de médios da Europa: Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes são indiscutíveis. E aqui começa outro problema: se esses três vão jogar – e devem jogar – então toda a restante convocatória ofensiva deveria ser construída em função disso.
Mas não.
Martínez convoca como quem prepara uma época de 52 jogos, cheia de variações táticas, microciclos e experiências laboratoriais. Só que isto não é o Football Manager. São, no imediato, três jogos garantidos.
Não há necessidade de criar um ecossistema tático onde coexistem avançados móveis, falsos extremos, médios híbridos e pontas-de-lança que atacam a profundidade em sistemas que nunca serão usados.
Levar Gonçalo Guedes – de quem, diga-se, gosto bastante, não só pela sua qualidade futebolística, mas também, pela sua perseverança, capacidade de resistência e força para ‘renascer’ e se reinventar – só faria verdadeiro sentido se Portugal jogasse regularmente em 4-4-2 ou com um ponta-de-lança móvel complementar. Mas isso exigiria retirar protagonismo a Ronaldo ou abdicar de um extremo. E ninguém acredita nisso.
Porque a seleção portuguesa continua construída em torno de uma verdade tácita: Cristiano Ronaldo joga sempre.
Mesmo quando já acrescenta pouco mais do que presença. E às vezes nem isso.
O problema não é o que Ronaldo foi. Isso está fechado e eternizado na história do futebol. O problema é o que a seleção deixou de conseguir ser por continuar dependente da gestão permanente do seu estatuto.
Portugal joga frequentemente condicionado pela necessidade de encaixar Ronaldo em vez de maximizar o coletivo. E isso tem consequências evidentes na dinâmica ofensiva, na pressão, na ocupação de espaços e até na escolha dos restantes convocados.
Depois há o exotismo estatístico habitual: jogar em Espanha num clube ameaçado de descida parece dar pontos extra na convocatória. Samu Costa agradece. O Mallorca também. Pena apenas que o Aursnes seja norueguês. Se tivesse nascido em Braga, Guimarães ou Viseu, provavelmente teria de recusar chamadas da seleção para descansar.
No fundo, esta convocatória revela aquilo que muitas vezes tem sido a era Martínez: uma seleção com jogadores extraordinários, mas organizada sem clareza hierárquica, sem coerência estrutural e excessivamente condicionada por nomes, estatutos e obsessões pessoais do selecionador.
Portugal continua a ganhar muitos jogos porque tem talento para isso. Mas continua a deixar a sensação desconfortável de que joga sempre abaixo do potencial disponível.
E isso, numa geração destas, não é detalhe.
É desperdício.
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