Nuno Campilho
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19 Fev 2026 | 16:45

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Nuno Campilho

Questões levantadas na sequência da polémica que se viveu no relvado do Estádio da Luz, onde surgiram acusações de alegados insultos racistas


A recente polémica em torno de alegados insultos racistas dirigidos a Vinícius Júnior por Gianluca Prestianni voltou a colocar o futebol no centro de um debate que ultrapassa as quatro linhas. Quando está em causa uma acusação de natureza racial, a reação emocional é imediata – e compreensivelmente intensa. Mas, precisamente por isso, exige-se rigor, responsabilidade e, acima de tudo, respeito pelos princípios basilares da justiça.


Comecemos pelo ponto essencial: o racismo é uma chaga estrutural no futebol e na sociedade. Não é um fenómeno residual nem circunstancial. Ao longo dos últimos anos, multiplicaram-se episódios em vários campeonatos europeus, com insultos provenientes das bancadas, comportamentos discriminatórios e respostas institucionais nem sempre à altura. O combate a esse fenómeno tem de ser firme, inequívoco e contínuo.


Vinícius Júnior tornou-se (e nem sempre pelas melhores razões) um dos rostos mais visíveis da luta contra o racismo no futebol espanhol. Foi alvo de insultos em diversos estádios (sem querer aligeirar, diga-se, em abono da verdade, que, amiúde, os mesmos surgiam após provocações por parte do jogador), alguns dos quais resultaram em processos disciplinares e condenações. A sua exposição pública, nesse contexto, é legítima. A sua indignação, compreensível.

No entanto, há um ponto que não pode ser ignorado: o histórico conflituoso do jogador brasileiro dentro de campo. O seu perfil competitivo é intenso, emocional, frequentemente provocador. Faz parte da sua identidade desportiva. Nada disso justifica, sublinhe-se, qualquer forma de racismo. Mas também não pode servir como blindagem automática a qualquer acusação que envolva o seu nome.

Quem quer ser respeitado, tem de se dar ao respeito. Esse princípio não relativiza o racismo; antes reforça a ideia de que o respeito é uma via de dois sentidos – dentro e fora do relvado.

No caso concreto envolvendo Gianluca Prestianni, importa separar factos de perceções. Até ao momento, não são públicas provas inequívocas que confirmem o teor das alegadas palavras. Não há decisão disciplinar tornada pública. Não há relatório conclusivo divulgado.

E, no entanto, nas redes sociais e em certos segmentos mediáticos, o veredicto parece já estar formado.

Em bom rigor, apenas duas pessoas saberão exatamente o que foi dito: quem acusa e quem é acusado. Tudo o resto são interpretações – algumas baseadas em imagens inconclusivas, outras em leituras labiais especulativas. Construir uma narrativa condenatória com base nisso é um exercício perigoso.

Está a atribuir-se todo o mérito moral a quem acusa, enquanto se retira qualquer margem de defesa a quem é acusado. Isto não é justiça; é julgamento popular.

A polémica ganhou ainda outra dimensão quando Luisão, antiga referência do Benfica e ex-dirigente do clube, veio publicamente manifestar-se, afirmando sentir vergonha perante a alegada atitude de Gianluca Prestianni.

A condenação foi imediata. O problema é que aquilo que foi condenado é precisamente o que, até ao momento, não está provado.

Quando uma figura com passado competitivo e institucional relevante assume uma posição pública dessa natureza antes da conclusão de qualquer averiguação formal, a sua palavra não é neutra. Transporta autoridade simbólica, influencia a opinião pública e contribui para a cristalização de uma narrativa.

Não se discute a legitimidade de uma posição firme contra o racismo – essa é obrigatória. O que se questiona é a oportunidade da condenação. Entre repudiar o racismo como princípio e validar uma acusação concreta vai uma distância que deve ser percorrida com prudência.

Num contexto em que já existe forte pressão mediática, declarações perentórias de figuras com estatuto histórico no clube acabam por reduzir ainda mais o espaço para um contraditório sereno. E isso é problemático.

Será ressabiamento após uma polémica saída da estrutura do Benfica? Isto vindo de quem, a cada final de contrato, alegava propostas para sair, para conseguir uma renovação sempre e cada vez mais vantajosa…

Ser institucionalmente responsável implica, por vezes, saber esperar. A indignação pode ser compreensível; a precipitação raramente é útil.

Não tardou, também, a chegar a reação de Gianni Infantino, presidente da FIFA, uma das figuras mais mediáticas do futebol mundial. Infantino disse estar “chocado e entristecido” com a alegada ofensa racista que envolveu Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni, sublinhando que “não existe absolutamente nenhum espaço para o racismo” no futebol e na sociedade e apelando – de forma enfática – à responsabilização dos culpados.

Nada disto é, em si, discutível num plano abstrato: a condenação do racismo como princípio é indispensável. Mas aqui também se insere uma crítica legítima e contextual à forma como essa condenação foi expressa e mobilizada.

Se, na teoria, a FIFA deve ser frontal na luta contra qualquer discriminação, na prática o seu presidente tem demonstrado uma propensão evidente para se pronunciar rapidamente sobre episódios que ainda não foram objeto de apuramento formal – com consequências comunicacionais e mediáticas que escapam ao controlo das entidades disciplinares competentes. A este propósito, não é irrelevante recordar que o mesmo Infantino se viu envolvido em polémica quando criou um suposto “prémio da paz” para Donald Trump, gesto largamente ridicularizado pela comunidade futebolística e pelos media internacionais por destoar de critérios claros de mérito e rigor.

Esta predisposição para declarações imediatas – mesmo antes de existirem conclusões oficiais de investigação – alimenta a sensação de juízo antecipado. É, precisamente, aquilo que criticamos quando figuras públicas, impulsionadas por reflexos de condenação moral, parecem mais empenhadas em “apontar o dedo” do que em aguardar resultados objetivos.

Quando Infantino, pouco depois do episódio no Estádio da Luz, veio a público demonstrar choque e tristeza, muitos interpretaram a sua fala como um sinal de apoio a uma causa justa – a erradicação do racismo. Outros, no entanto, viram nela o reflexo de um fenómeno mais amplo: a pressão para reagir a quente, sem esperar pelo apuramento dos factos, transformando o que é ainda uma acusação em quase uma sentença mediática antecipada.


É legítimo repudiar o racismo sem, contudo, converter uma suspeita – ainda em fase de investigação – num facto consumado.

Independentemente das simpatias clubísticas – e não é segredo que, sendo benfiquista, há naturalmente uma atenção especial quando está em causa um jogador do Benfica – o que está verdadeiramente em causa são princípios.

A presunção de inocência não é um detalhe técnico do direito penal; é uma salvaguarda civilizacional. Até prova em contrário, qualquer pessoa é inocente. Esse princípio não pode ser flexibilizado em função da popularidade de quem acusa ou da sensibilidade do tema.

Se vier a provar-se que existiu comportamento racista, a sanção deverá ser exemplar. Sem hesitações. Mas, enquanto tal não estiver demonstrado, transformar um jovem jogador numa espécie de bode expiatório é um abuso que em nada contribui para a seriedade do combate ao racismo.

Ser claro é essencial: minimizar denúncias de racismo seria irresponsável. Ignorá-las seria cúmplice. Mas instrumentalizá-las também é perigoso.

O combate ao racismo exige credibilidade. E essa credibilidade constrói-se com investigação séria, contraditório assegurado e decisões fundamentadas. Quando se condena antes da averiguação, corre-se o risco de fragilizar a própria causa que se pretende defender.

Não se combate discriminação criando injustiças paralelas.

Gianluca Prestianni é um jovem jogador, com uma carreira promissora pela frente. Condená-lo publicamente nesta fase, sem que as averiguações estejam concluídas, é potencialmente devastador – reputacional e profissionalmente.

Não podemos embarcar na vox populi. Não podemos permitir que a pressão mediática substitua os mecanismos formais de apuramento. Temos de ser sérios.

Se há investigação em curso, aguardemos. Se há elementos probatórios, que sejam analisados pelas instâncias competentes. O futebol precisa de firmeza contra o racismo, mas também de maturidade institucional para não destruir carreiras com base em suposições.

Indignação não é prova. Acusação não é condenação. E justiça não se faz ao ritmo das redes sociais.

Pode ainda acrescentar-se – com a ironia que o tema permite, sem nunca lhe retirar gravidade – que a palavra que está no centro da alegação (“macaco” / “mono”) tem um peso histórico e simbólico profundamente ofensivo quando utilizada em contexto racial. Isso é inquestionável. Mas a carga da palavra não dispensa a prova da sua efetiva utilização.

Curiosamente, para quem cresceu a ver televisão em Portugal, a palavra “macaco” evoca também uma memória completamente distinta e até caricatural: o célebre Macaco Adriano, figura incontornável do icónico Big Show SIC, conduzido por João Baião. Um personagem que marcou uma geração pelo humor e pela leveza, distante de qualquer conotação discriminatória.

A referência é meramente irónica, claro, mas serve para sublinhar um ponto essencial: as palavras têm peso, contexto e intenção. E é precisamente por isso que não podem ser tratadas de forma automática ou presumida. Se alguém utilizou uma expressão racista, deve ser responsabilizado. Se não utilizou, não pode ser condenado com base na força emocional que a palavra transporta.

Entre a memória televisiva e a gravidade de uma acusação racial vai um mundo de diferença. Esse mundo chama-se prova. E é nele – e não na especulação – que deve assentar qualquer juízo sério.

O que se exige agora não é ruído – é serenidade.

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Nuno Campilho
Nuno Campilho

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Pedro Jerónimo
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